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A arte no sentir - como senti-la?

#9

episódio

Título: A arte no sentir - como senti-la?

Data de publicação: 14/2/2022

Cocriação: Elizabeth Caldas e Natalhinha Marinho

Cidade/UF: Maceió/AL

 

[vinheta]

 

Olga Aureliano: quando falamos de representatividade na cultura, onde ficam as pessoas com deficiência? Partindo da máxima: “A arte a gente não entende, a gente sente”, qual seria o papel do artista nesta proposição? Elizabeth Caldas e Natalhinha Marinho instigam artistas a refletirem sobre as possibilidades de acesso e alcance de seus trabalhos. Este é o nono episódio do nosso Canal Retratos Defiças.

 

[vinheta]

 

[efeitos sonoros com instrumentos percussivos, ao longo desta primeira fala]

 

Elizabeth: quando falamos de representatividade na cultura, onde ficam as pessoas com deficiência? Natalhinha Marinho, artista alagoana com visão monocular, contadora de histórias, cantora e compositora com um caminho trilhado na arte como brincante, se junta a Elizabeth Caldas, realizadora audiovisual na cocriação desse podcast. As duas com morada na criação coletiva, entendem que pensar a representatividade nas obras de arte é também criar laços curas e filhos realizar também é construir pontes para uma real alcançabilidade. Neste episódio do retrato defiças, temos como proposta investigar a arte no sentir como senti-la ou a arte no criar como afeto. Partindo da máxima; a arte a gente não entende, a gente sente, qual o papel do artista nessa proposição, a quem seu trabalho artístico se destina.

 

[trilha]

 

Elizabeth: eu sou Elizabeth Caldas e tô na apresentação desse episódio. Eu sou uma mulher branca, gorda, de cabelos castanhos, na altura dos ombros, trabalho com audiovisual e educação desde 2008. Lecionando, dirigindo documentários, me mudei para Maceió em 2019 e participo de curadorias, consultoria de roteiro e apaixonada por podcast. Antes da gente começar a conversa deixo minha parceira nesse podcast Natalhinha Marinho se apresentar.

 

Natalhinha: meu nome é Natalhinha, apesar de ter esse nome no diminutivo, eu sou uma pessoa grande, uma mulher negra de pele clara, tenho boca, nariz e olhos pequenos, e também sou uma pessoa com deficiência, tenho uma visão monocular, meu cabelo geralmente fica para cima e agora tá pra cima com uma faixinha em baixo. Tem duas cores, eu tô na sala da minha casa, atrás de mim tem uma parede cheia de desenhos, dois violões, e uma estante com livros. Comecei a tocar violão com 16 anos, e isso foi bem na fase que eu virei roqueira, né. Eu era bem roqueira, bem do rock, bem do preto, bem de muitas pulseiras coloridas, coisas de pino heavy metal, hardcore, tudo misturado. E aí, a minha vontade era tocar violão, pra poder, né me enturmar. Eu também não era uma pessoa muito falante na época. Então eu comecei tocando violão na escola, repeti de ano nessa brincadeirinha, mas fui, foi nessa brincadeirinha que eu tô até hoje, aí, hoje eu tô com 34, e sempre fico tocando, né. Meu negócio é tocar violão, e aí através do violão, foi que veio teatro, veio a dança, veio outras atividades, sempre relacionadas à música e a arte.

 

Elizabeth: quando pensamos na construção desse episódio, decidimos convidar mais gente pra essa jornada. Mais artistas e mais diversidade e com ela, mais música. Vem Malta Lee se apresenta.

 

Malta: então, eu sou Malta Lee, eu trabalho como compositora, também lancei recentemente o meu EP. Sou estudante de psicologia na Universidade Federal de Alagoas. Eu sou uma mulher negra, é indígena, defiça visual, magra, cabelos cacheados curto, sou bem engraçada (risos), tiro onda com tudo, tenho 5 tatuagens pelos braços e, é isso (risos).

 

Elizabeth: a gente vai falar de música, a gente vai falar de audiovisual e a gente vai falar de fotografia. E pra falar de fotografia, a gente chamou uma convidada muito especial, Benita Rodrigues. Chega junto.

 

Benita: meu nome é Benita Rodrigues, sou baixinha, sou negra, tenho cabelos curtos e cacheados, uso óculos. Atrás de mim, tem uma parede com tijolos, venho de uma família de artistas, sou formada em comunicação social, com habilitação em relações públicas, sou fotógrafa, minha vida inteira, sempre foi influenciada pela arte através da minha família. Minha família é circense, música, muito musical, nossos encontros sempre foram rodeados de muita música, poesia, e isso foi o que me inspirou a seguir nesse caminho da arte. Através da comunicação, eu me encantei muito pela fotografia, hoje tenho uma escola de circo que é a “Sururu Circo”, e que é aberta a todes.

 

Elizabeth: Malta vamos agora falar do seu trabalho, como é seu processo de criação como; conta um pouquinho do seu disco, do seu último trabalho fala um pouquinho pra gente como você compõe.

 

Malta: então a composição, ela faz parte assim mesmo que eu lembro até na fase de criança assim, só que eu não registrava né, eram composições exclusivas do momento (risos), e aí foi quando eu comecei a registrar por volta dos 18 anos, né. E a primeira música que eu realmente copiei, botei notas; eu tava dormindo, era umas 2 horas da manhã, eu simplesmente acordei, peguei o caderno, a caneta, acendi a luz, peguei o violão, fui escrevendo botando as notas. Coloquei o violão no canto, fechei o caderno, apaguei a luz, voltei a dormir. E aí quando eu acordei, tá aí de manhã, eu ‘cara, fiz alguma coisa, pera aí’, aí fui (risos), fui tentando lembrar e tal, e já fui mandando pra algumas pessoas pra ver o que achavam. E de repente, virou a música que todos só mudavam o nome pra namorada, pra namorada (risos), no meio dos amigos, assim. Então, é isso; muitas vezes a composição, as minhas composições, elas não são composições daquilo que eu tô vivendo. É daquilo que eu tô sentindo exatamente, às vezes ocorre sim, eu acrescento alguma coisa, utilizo um detalhe pra criar todo o resto em volta. Então, é algo que simplesmente flui, né. Às vezes eu tô aguando o jardim, e aí começa a vim, aí se eu não largar ali na hora e for registrar, de novo se torna uma composição do momento. Sabe assim, daquele momento somente, que eu não consigo depois lembrar pra registrar. Às vezes eu tô tocando o violão, aí começo a resenhar, resenhar e sai várias músicas, aí fico; não resisto, então (risos), fica ali, mas é geralmente assim, se eu escutar um relato, algum amigo, algum conhecido vem desabafar comigo, vem contar o que tá passando, aí às vezes ali já vou criando alguma coisa. E às vezes eu mostro depois pra pessoa ou fico só na minha, porque é algo muito profundo, né, muito pessoal. Mas, a composição ela flui assim, de relatos, até de vivência assim minhas antigas, ou de simplesmente uma frase que você fala no meio da conversa que eu me toque, ‘eu, eita, que massa velho”, aí vou lá e componho (risos), em cima daquela frase. Então, é assim que as composições se, se revelam a mim, né. E sobre o trabalho, é esse lançamento do EP né que é Malta Lee, ele veio através do edital, né que eu passei, é do Aldir Blanc. Então, foi um momento bem especial pra mim, eu achei que eu nunca iria divulgar sabe, principalmente, não vou mentir, principalmente depois de ter me tornado uma pessoa defiça, pela forma como as coisas são encaradas sabe pra gente. Eu achei que eu nunca conseguiria realmente colocar assim pro mundo (risos), e de repente quando eu vi o trabalho ganhou uma; tô dizendo, não sei se um dia ela vai realmente se expandir, mas a forma como foi trabalhada, se ganhou uma proporção sabe com carinho, um cuidado, né assim de uma forma tão bonitinha (risos), né que tô gostando assim, é muito bom saber que as pessoas escutam e gostam das letras, e se identificam, né com as letras tem gente que fala, “cara é muito a música que parecia que era minha vida ali que estava sendo estava sendo descrito assim no momento”. Então, tá sendo bem legal, né ter divulgado em todas as plataformas aí, tá aí tem tido um feedback legal, de todos que tem escutado.

 

Elizabeth: tem uma máxima na arte, muito no audiovisual, dos filmes cabeça, esses filmes de gênios, normalmente homens brancos e velhos, que é arte não é para entender, ela é pra sentir. É, eu concordo um pouco com essa frase, mas eu também, ela é muito carregada de elitismo, fascismo. Eu queria um pouco que você falasse: A arte é pra entender, ou é só para sentir, ou a gente entende o que a gente sente, queria que você falasse um pouquinho; sua arte, é pra entender ou pra sentir?

 

Benita: cada um entende arte como quer, né. Assim como tudo na vida, cada um entende de acordo com o seu contexto, de acordo com a sua vivência, de acordo com suas ideologias, enfim. Mas o que você sente na arte é muito mais forte do que o que você entende, entendendo-se que, o sentir passa muito por sensações físicas, né. O sentir vai muito do seu coração, das suas vivências anteriores, porque algo que é pode ter te tocado muito; algo que pode ter sido uma peça de teatro que pode ter sido extremamente emocionante pra você, pode não ter sido para mim, né. Mas, a partir desse sentir, a arte também tem as suas obrigações de entender o seu papel, enquanto um lugar de denúncia, enquanto um lugar onde as pessoas, é precisam entender também o que se passa em cada lugar, o que se passa em cada sociedade. Eu tenho assistido alguns curtas iranianos, que tem me tocado muito, e tá muito nesse lugar de entender e sentir, né. Entender denúncias, entender, é outras sociedades, outros contextos, sem, sem colocar ela nesse lugar de um patamar superior, não somos, nós somos superiores porque nós somos artistas não. Nós não somos superiores, por isso, nós não somos superiores, né. a ninguém, nós temos é uma puta responsabilidade de conseguir, expressar, dar nosso recado, e que ele consiga ser ouvido por todos, né. Porque muitas vezes agente, por exemplo, da fotografia, faz um trabalho que ele não é acessível a todos, então nem todos vão entender ou sentir o nosso trabalho.

 

Elizabeth: o que a gente sabe, é que expressões artísticas estão em todos os lugares, e a gente falou mais sobre a presença da arte no nosso dia a dia. Minha parceira cocriadora desse projeto do podcast de defiças, e a sua, a sua vida como deficiente visual que tem norteado um pouco das nossas reflexões, que tem norteado nossas, nossa ideia inicial. Pra falar sobre arte, e pra falar sobre como a gente sente, e provocar um pouco os autores e criadores pra alcance e responsabilidade da, de acesso né, e as suas obras de arte.

 

Natalhinha: então, eu acho que de alguma forma é ter, eu acho, eu acho, que as pessoas quando ela tem alguma deficiência, os outros sentidos, eles se tornam mais aguçados, né. Tipo, é bem clichê todo mundo dizer isso, mas, eu acho que isso é bem real mesmo, porque eu acho que existe essa sensibilidade maior com a audição mesmo. Então, eu tenho uma relação muito maior com a música, e também percebo isso na minha vida social, né. De ter essa relação com o ouvir mesmo, de ouvir tudo, de também querer ouvir e buscar tá nesse caminho. E muitas obras também que são mais ligadas à música, assim elas são muito fortes em mim né, e eu também vejo que agora, eu já fui pra exposição, não aqui em Maceió, mas já fui em exposição em Pernambuco, que tinha o recurso do áudio, pra gente tá ouvindo, o que era que tava representando aquilo ali, mas nem sempre era uma audiodescrição, às vezes algumas obras que eu vi, ela  tinha audiodescrição, mas outras eu vi, que tinha uma trilha sonora. Era tipo pra gente acompanhar com recursos do fone né, eu acho que pra você ficar só ouvindo aquele ambiente, mas não tinha uma audiodescrição então era você imaginar e você pensar, o que poderia se passar com aqueles áudios rolando, né.

 

[trilha]

 

Malta: a arte eu sinto, de diversas formas. Na vibração, na descrição, no toque, sabe, é de como a imagem se faz no meu imaginário, né. Através dos relatos de como eu sinto aquela descrição. Muitas vezes, quando alguém descreve a imagem ou escultura pra mim, ela, ela me toca de uma forma tão grande, que fico emocionada e às vezes como a arte, ela, a cada um ela, ela é interpretada, sentida e vivida de uma forma, às vezes até a forma que alguém descreve aquela imagem pra mim, não; realmente o autor quiz trazer, mas ela também ganha vida, através daquilo que eu que crio no meu imaginário ao ouvir.

 

Natalhinha: tenho uma curiosidade, né porque a minha deficiência né, ela veio de nascença, e aí eu sempre como é que eu posso, sempre lidei com ela bem, eu não tenho, é eu não tive a experiência de enxergar com os dois olhos que você teve. Que aí a sua veio, em consequência de outras coisas já futuras. Como foi, como você sente hoje a questão da relação com a música especificamente o seu o ato de ouvir. Porque assim, eu penso que deve ter ficado mais aguçado esse sentido, né? E aí, como é que você sente assim essa diferença, teve essa diferença assim grande, ou foi algo que foi é natural, acontecendo aos poucos porque, você já tinha essa vivência antes musical, né. Eu lembro que eu conheci você na época do coral, do Embracanto, e que você cantava e tal, então você já tinha essa vivência antes de passar por esse momento de se tornar monocular. Então, como foi assim, foi muito diferente, você hoje percebe, mas coisas com, com ouvir a música, a arte ou foi natural assim as coisas foram devagarzinho e se encaminhando para o que tá hoje?

 

Malta: monocular é baixa visão, né o que eu enxergo, enxergo pouco, é um olho que ver vultos ou enfim só o formato, as formas das coisas, das pessoas, então eu sempre tive os, os sentidos bem aguçados, né é de ouvir coisas assim longe que as pessoas: “oi, como assim”, o de sentir cheiros que ninguém tava percebendo, de ver coisas. Apesar que aos 14 anos, aí que é da família miopia, mas do nada às vezes, eu enxergava coisas além, uma distância é até de assustar um pouco, mas quando a gente perde o sentido, realmente isso mexe com, com todos os outros. Tanto que cheguei a ter momentos de ter uma certa tontura, de ter um desequilíbrio, porque os outros sentidos estavam mexendo. Então é nesse sentido de ouvir, é como eu capto muitos sons, às vezes isso me atrapalha (risos), né? Porque, às vezes eu tô aqui conversando com vocês por exemplo, e aí o tá acontecendo barulho lá fora com o vizinho, com o carro numas ruas aqui longe, eu vou ouvindo às vezes até o vento que bate nas árvores e tal. Então, quando eu consigo realmente me concentrar, eu percebo coisas na música de uma forma realmente muito, é muito mais nítida, muito mais profunda. Então, é algo que eu preciso na minha vivência, né, que eu sei que cada um tem uma forma de encarar, eu preciso realmente me concentrar, porque... ou eu consigo até alcançar notas, né quando eu gravei EP, o meu produtor musical Janeo Amorim ficou até espantado, porque eu alcancei notas que é muito difícil para alcançar. Mas em outros momentos, eu cheguei a ter um certo, me perder um pouco, né na nota, no ritmo e tal por causa dos vários sons que tavam perto de mim, então é essa, esse, excesso de sons, às vezes para mim ela pode atrapalhar. Preciso realmente me centrar. E em questão da música, por exemplo, é eu não tenho um estudo aprofundado do violão, por exemplo assim, então até quando eu vou pra estudar alguma música nova, né, como eu tento pegar as notas mais simplificadas e tal e vou tentando é acompanhar desse modo, às vezes eu tento de alguma forma pescar as notas (risos), mas tentando realmente aos pouquinhos, nem que eu bote a música bem lenta para tentar diminuindo, né a velocidade, para tentar acompanhar de alguma, de certa forma, através daquilo que eu tô ouvindo. 

 

[trilha com instrumento percussivo]

 

Benita: a arte é simplesmente a vida, porque eu nasci, me criei em um meio onde todas as pessoas respiravam arte, né. Pra quem nasce nesse meio, a arte não é só, é um momento, uma poesia, uma música, a arte é tudo né, o que tá no nosso cotidiano. Tudo, tudo é arte. E pra mim, sentir a arte é, é sentir que estou viva, né. O tempo todo, quando em algum momento, eu não sinto a arte, é parece que a vida perde o sentido, é respirar, é sentir, é tá aqui conversando com vocês, é trocando ideias, é compartilhar experiências, também é arte, né, é isso. Quando eu penso em memórias que me atravessam, são atravessadas pela arte, é imediatamente eu lembro da minha família, não tem como não lembrar, (risos), mas é essa coisa da arte unir pessoas, né, me faz lembrar de encontros musicais, eu lembro bastante de encontros musicais, que me atravessam, onde eu conheci pessoas que transformaram a minha vida em muitos momentos. Onde eu conheci meus amigos que me inspiram, foram momentos muito musicais e poéticos, minha família é acostumada a fazer encontros, né musicais e aí a gente, um que chama o outro, amigo que chama outro amigo, e você sempre acaba conhecendo, é pessoas que você não conhecia, mesmo sendo dentro da sua casa. Eu lembro muito da minha mãe é fazendo comida, meu pai servindo bebida e nesses encontros a gente tocando, e bebendo, e se divertindo e sendo atravessada por poesia também, que é uma coisa que eu sinto muita inspiração devido ao meu pai que é poeta. Mas, eu tenho muita essa lembrança de cheiro de cachaça, cheiro de comida, e tudo isso sendo embalado por poesia e música. São lembranças muito fortes assim na minha infância, adolescência. E de olhar pra aquela movimentação sentir aquele cheiro e dizer “poxa, é será que a gente pode viver, viver dessa alegria todos os dias”, né. Como se a arte salva tudo né, a gente tá e salve mesmo né, salva, acha que não, mais salva a gente de muita coisa.

 

Natalhinha: você falou sobre a sua família ser de origem circense, né e hoje você dá aula na escola de circo, que você também é idealizadora da escola, não sei se dona seria a palavra, mas, enfim, uma das pessoas que são responsáveis pela escola, e também acaba tendo uma relação bem próxima com o teatro, né. Porque eu já vi você fotografar além do espetáculo que eu faço parte obviamente, que foi agora recente, é outros espetáculos de teatro, como é; fala um pouquinho sobre essa relação com a, com o teatro mesmo.

 

Benita: é uma das coisas que eu mais amo fotografar, é são espetáculos, porque é eu vou construir a minha obra, baseada em outra obra que já tá lá, né. Foram outras pessoas que criaram aquela obra, e eu tenho que ter muita responsabilidade, é em como eu vou transmitir aquela obra, através da minha fotografia, que vai se tornar outra obra (ridos), então é fotografar espetáculos de teatro, de dança, é algo que eu preciso ter muito cuidado, eu tô mexendo com a obra de outra pessoa, mas também o que me dá muito prazer. Eu me aproximei mais do teatro, por causa do meu companheiro que é ator, fundou junto comigo e com um outro amigo nosso Ícaro Gama, a Sururu Técnicas Circenses, que é a nossa escola hoje de circo, convido todos vocês que quiserem conhecer Sururu Circo (risos). E essa relação da fotografia com o teatro; o que acontece; em geral sim, os espetáculos são trabalhados muito na sombra, né. Isso quando eu falo espetáculos de, sem ser ao ar livre, né, espetáculos dentro de teatro, dentro de espaços fechados. Espetáculos ao ar livres, esse contém outra dinâmica, né, porque não tem essa preocupação com iluminação projetada, né. Iluminação que alguém, que alguém planejou, né. mas quando se trata de espaços fechados, teatros e tudo mais, existe um desenho de luz e quem trabalha na fotografia desses espetáculos precisa tá atento e respeitar aquele desenho de luz que foi planejado por alguém tá ali acompanhando aquele processo. Porque o desenho de luz dentro de um espetáculo, tem tudo a ver com aquela obra, né. Não é uma luz que foi colocada ali à toa, é uma luz que foi pensada pra compor aquele espetáculo, então quem vai fotografar tem que ter essa responsabilidade. Por isso, que eu gosto muito de assistir, sentir o espetáculo antes de fotografá-lo, né, que quanto mais a gente sente aquela obra, senti o que é que o autor quis passar é aí que gente vai conseguir, é transmitir esse sentimento pra fotografia, pro audiovisual.

 

[trilha com instrumento percussivo]

 

Malta: tô no meio da arte, desde da adolescência, né; então já cantei em coral, já participei de musicais, peças de teatro. É por sinal, minha irmã é formada em teatro, mas eu vivia lá no espaço cultural, e me metia no meio das peças e tal oficinas (risos), e as pessoas acham até que sou formada em teatro. É, então sempre realmente nos palcos, seja atuando ou cantando, até que eu adquiri a deficiência visual em 2017. Hoje estou monocular, baixa visão e a arte é continuou mais assim no lado realmente de compor, né. De escutar bastante música, de assistir, né espetáculos e tal. No dia a dia é mais assim principalmente, porque também agora foi em 2017, a gente tem já 2 anos aí vivendo com a pandemia, então, muito na, realmente ligada em internet. Então no dia a dia mais nessa, nesse lado de ouvir mesmo pelas plataformas digitais, de assistir, é peças teatrais pela internet mesmo. Pelos contatos que eu tenho, com muitos artistas e sejam de várias formas também, de apesar da deficiência visual é, das artes visuais, né. Tanto que fui convidada também para trabalhar na produção de 2 filmes, é, então a arte, ela se faz presente no meu dia a dia assim.

 

Elizabeth: quando falamos de representatividade na cultura, onde ficam as pessoas com deficiência?

 

Benita: eu tenho um pouco acesso a esse universo da acessibilidade, mas eu sempre tive um questionamento como seria, porque fotografia é algo a princípio muito visual, né. A princípio, a fotografia é algo visual e aí eu sempre me questionei, como que a fotografia poderia é, ser mais acessível, né pra pessoas, por exemplo, que tem baixa visão, ou não tem a visão. E aí fazendo, há um tempo atrás, fazendo uma pesquisa rápida, descobri um fotógrafo, que eu acompanho hoje em dia, o fotógrafo chamado João Maia. Ele é um fotógrafo cego, e ele fundou Fotografia Cega, que é um projeto onde ele dá palestras, dá cursos para pessoas que têm visão ou não, É sobre a fotografia e acessibilidade, então, quem quiser já acompanhar aí pode colocar nas redes: Fotografia Cega, que vai encontrar o João Maia, que é um artista incrível, ele é especialista em fotografia esportiva. Inclusive agora nas últimas olimpíadas, ele era único fotógrafo cego, fotografou nas olimpíadas no Japão, a fotografia dele, é uma fotografia extremamente carregada de fortes emoções, cada fotografia, transmite aquilo que ele tá sentindo. E é muito massa quando você escuta ele falando, que o que ele sentiu naquele momento, é exatamente o que tá lá na fotografia dele. Mesmo ele não tendo esse recurso da visão, ele incrivelmente transmite nas suas fotografias, sentimentos muito fortes.

 

Natalhinha: tem umas fotos bem legais, e ele fotografa também, bastante pessoas com deficiência. É um olhar muito, muito peculiar mesmo, assim, nem parece, né. Assim, se a gente for que, ele realmente, ele sente mesmo, o que a fotografia quer trazer.

 

Benita: ele é incrível.

 

Natalhinha: por que cada foto, espetacular.

 

Benita: ele é incrível, ele é incrível.

 

Natalhinha: homem negro também.

 

Malta: é interessante isso, porque quando eu fui, é chamar pessoas pra participarem da gravação dos clipes, na, do, da das músicas do EP, eu queria trazer pessoas diversas, e aí quando eu procurei, por exemplo, é uma mulher que fosse defiça artista, eu não achei, né. Eu falei, com algumas pessoas assim, e eu não tinha encontrado. Eu ainda queria que fosse também, uma mulher negra, e aí eu vi que realmente assim; não tem o que não falta é o Retrato Defiça, está aí para mostrar isso, são pessoas defiças, que são artistas e artistas incríveis, né assim. Mas onde é que estão essas pessoas? elas não têm visibilidade, né uma coisa que as pessoas elas fingem que não veem a gente, né. Elas ignoram, e muito sobre essa coisa do capacitismo, é de colocar a pessoa defiça, como uma pessoa realmente, é incapaz, como uma pessoa que ela, é nós somos menosprezados, né. Como pego o deficiente classifica pessoas somente aquilo, quando na verdade a gente não é somente a deficiência, mas sim, existem vários corpos, né. Eu, por exemplo não sou somente uma pessoa com deficiência, eu sou uma pessoa que trabalha, vez ou outra com produções artísticas, que, e que trabalha com que estuda psicologia, que tem uma própria divulgação, da das composições entre tantas outras coisas, né. Então, a gente não, vê as vê, não vê com à proporção que deveria existir, porque a pessoa com deficiência, é apenas um corpo diferente. Todos nós, obviamente temos as nossas limitações, mas isso não classifica como algo inferior, mas apenas diferente. Então, não somente nos palcos como artistas né, digamos assim, na, no foco, mas também pessoas que venham assistir, que venham reverenciar. Muitas vezes porque não tem acessibilidade, um direito nosso, acho que deveria ser realmente proporcionado, né. Como algumas vezes já em conversas, não é ã muitas vezes a gente se sente uma pessoa defiça, quando está no meio de pessoas não defiças, né. E como assim, por exemplo, eu por exemplo, com deficiência visual, é moro sozinha, tenho as minhas responsabilidades, tenho 2 cachorros, a qual cuido tudinho, mas muitas vezes quando eu tô no meio da sociedade, é quando eu me sinto realmente uma pessoa defiça, por causa da forma como as pessoas me tratam. E muitas vezes, elas só não se permitem tratar de uma outra forma, com o, por que elas não se permitem conhecer, não se permitem conversar, não se permitem, é interagir, né. Então, tratam muita a pessoa com deficiência, por exemplo com uma pobre coitadinha, ou como se... trata como se fosse uma criancinha, ou, ou simplesmente como se eu não pudesse nem partir minha própria carne no almoço, descer uma escada, ou abrir uma porta, né. Isso, é um absurdo. Então, no meio da arte, as pessoas defiças, elas estão, é muito ausente, é não somente por todo um histórico, né dentro de quem vivencia a deficiência, mas também de quem trata a pessoa com deficiência, de como trata a pessoa com deficiência.

 

Natalhinha: é tem uma coisa que eu tava aqui pensando né, na verdade eu já vinha pensando sobre isso, que é a deficiência aparente, né que também acaba quando você tem uma deficiência que ela é aparente, as pessoas é como se elas não só tivessem esse hábito, né de infelizmente algumas pessoas tratar como se a pessoa precisasse de tudo, né. Não conseguisse fazer nada, como também quando às vezes você tem uma deficiência, que ela não é tão aparente, né. Que ela, no meu caso, por exemplo, que é mais uma quando alguém sabe que eu tenho uma deficiência. Mas é de você encarar também outras realidades, né de até de, da sociedade mesmo de você ir numa fila que é pra prioridade, e você não ser respeitado, porque a sua deficiência não é aparente, né. Mas, assim, se a pessoa souber, começa a lhe tratar diferente, mas até então, ela lhe tratava normal porque ela acha.

 

Malta: humrum

 

Natalhinha: que é o normal, né que eu não sei nem se, é uma palavra interessante para falar sobre tantos corpos diferentes, né.

 

Malta: é.

 

Natalhinha: mas, as pessoas tem isso também, né. Eu tava, você falando, pensando sobre essa questão da aparência, né de quando a gente não tem, quando a gente de fato tem, e é, e essa coisa que do respeito mesmo. Sobre achar que você precisa ou necessita que a pessoa faça tudo, por que você é incapaz, porque você tem uma deficiência.

 

Malta: isso, é isso, é interessante porque eu vou contar uma das situações aqui. Eu tava na fila, por exemplo do banco, eu fui tirar uma dúvida, e a moça já me colocou na frente da fila, e uma mulher que tava atrás de mim, ela começou: “ah, eu vou no médico também, vou pedir um atestado, vou comprar uma bengala pra começar a passar na frente de todo mundo” e eu fingindo que aquilo não era comigo. E ela: “é, isso é um absurdo, as pessoas”, e tipo assim; realmente tem quem diga, que eu não aparento conviver com a deficiência visual, né primeiro quando eu conheço o ambiente, eu desenrolo super bem, eu realmente, como é tenho olho muito pequenininho, fechado, não dá para ver o olho que é totalmente, né afetado já pela deficiência, todo branco, esbranquiçado. E aí, eu sempre fui de cortar o cabelo de várias formas, o cabelo tava meio que descolorido, toda, com estilo totalmente diferente, as pessoas tem essa caracterização também, que a pessoa com deficiência ela se veste mal, né. É impressionante, como isso é forte, e aí ela começou a falar essas coisas, e aí na hora o atendente começou a me chamar, e eu, três vezes, eu falei: ‘é comigo’? é, ele: é, pode vim. E aí, eu tropecei na própria bengala, distraída, desastrada como sempre, e aí eu ia caindo, e aí foi quando ela viu, que realmente, eu convivia com a deficiência visual, né. Foi quando o rapaz tava atrás dela, “tá vendo que você tem que prestar atenção, como é que você fala um absurdo desse e tal”, enfim. E então, tem essa coisa de realmente você ter que aparentar, tem aquela coisa, que eu quando estou com a bengala, as pessoas sabem, mas quando eu não tô, as pessoas não sabem, né. E isso já muda, é impressionante como muda o trato. Até na questão, quando eu tô sendo paquerada, que eu percebo, que a pessoa percebeu a bengala, e ela deixa de olhar sabe. Ela, ou tá muito perto de mim, por exemplo, que eu percebo a pessoa olhando, olhando, olhando; quando ela vê a bengala, ela já muda, sabe. É como se tá paquerando, por que que precisa do meu contato também, né você que tá a fim (risos). Mas assim, e também dessa questão de achar que realmente a pessoa precisa de tudo sabe, ela não pode ir ao banheiro sozinha, ela não pode pegar uma água, ela não pode sentar, ela não pode fazer nada, não pode, é, nesse caso que a pessoa cadeirante, por exemplo, fazer outras atividades. Isso chega a ser sufocante, são nesses tratos que realmente faz com que a pessoa defiça sinta-se defiça, e não simplesmente uma pessoa um pouco diferente, né. Tenho certeza que cada uma de vocês, por exemplo, tem coisas que vocês tem limitações, tem coisas que precisam de auxílio, mas isso não significa que não possa fazer as outras coisas

 

[trilha com instrumento percussivo]

 

Elizabeth: será que a gente reflete sobre as possibilidades de acesso e alcance dos nossos trabalhos. Já passou da hora da gente falar sobre isso.

 

Natalhinha: a música entra em um outro lugar, né que é diferente porque a gente quando é ligado ao som, né tem um sentido também que é real, real físico. Se não é o sentir, só emocional, ele é físico. Eu tava pensando nisso ontem mesmo, ouvindo a música bem alta, em um ambiente, foi quase que inevitável a minha vontade de dançar naquele lugar. Porque a música tava muito alta, e aí mesmo que eu não gostasse da música ou que eu não tivesse nem entendendo que a letra tava dizendo, de alguma forma, eu tava me sentindo com vontade física de dançar. Tipo é uma outra forma também de sentir a arte, né. A questão do áudio, porque ele vem dessa questão é vibracional mesmo do corpo. Tem estudos inclusive, que falam dessa presença muito forte, quando a gente escuta coisas percussivas, que é natural que o nosso corpo vai pegando aquele, aquele ritmo, né. E aí fica o questionamento, será que é entender ou sentir? Será que a música é algo diferente? Só uma questão pra pensar.

 

Elizabeth: é... entender o quê, né? Entender o que. Que audácia é sua que vai colocar uma obra no mundo e vai achar que você tem algum controle do que é que tá aquilo, que as pessoas tem que sentir, é que que prepotência é essa, né? Se a obra de arte justamente ela é, a personificação... ela vira universal quando cada pessoa faz a sua representação, né.

 

Benita: isso.

 

Elizabeth: a música a gente faz a nossa representação, quem ouve, né? E tem essa coisa que a Natalhinha falou, ela é física, ela, ela vibra na gente, né. Então, por isso que a música, ela tem essa, esse apelo, essa amplitude muito única.

 

Natalhinha: ela é bem acessível, inclusive em relação às outras artes, né porque chega quase que da mesma forma, que chega uma qualidade de som de uma artista famoso que grava lá a sua música. É aquela mesma música que vai tocar num lugar muito pobre, com a mesma qualidade de frequência assim, porque o que acontece também, é que as vezes, né o acesso as artes visuais, acaba sendo por uma tela do computador, né.  Quando tem esse acesso, e ele não é da obra em si, né. Ele é uma digamos, uma fotografia da obra, né que já é uma outra obra.

 

Benita: é uma reprodução, é.

 

Natalhinha: é então, é a música não; ela chega mesmo assim. Você pode passar numa casinha bem humilde, e você vai tá ouvindo aquela mesma música, que se for aquela música, vai tocar na outra casa lá que as pessoas que tem o poder aquisitivo melhor, da mesma maneira. Então, é essa questão do acesso, eu acho que se de alguma forma, as outras artes pudesse ser como a música, seria incrível, né. Assim o acesso à arte mesmo, e quase de qualidade mesmo, parecida, talvez acho que é essa palavra que deve ser.

 

Elizabeth: qual é o nosso papel como artistas criadores, que isso seja um ponto chave na, quando fecha um trabalho, quando publicam um trabalho, quando faz um texto, quando um se coloca como portfólio. Qual é o nosso papel nesse local da acessibilidade, se a gente sabe que nosso viver é político, sabe que a nossa arte é política, é e aí fica aqui o último questionamento. Que é, quando a gente fala de representatividade na cultura, onde ficam as pessoas com deficiência?

 

Benita: quando você fala essa questão de acessível a todos, a nossa a obra ser acessível a todos, é um exercício constante, né que se a gente não instigar, que não persistir e insistir, vamos ser acessíveis. É essa população que é grande, que não é pequena, que já é invisibilizada, pode se tornar cada vez mais por quem, por quem diz que é acessível a todos, né. Acessível, que quando a gente fala: ‘a minha arte vai em todo canto’, mas vai pra todos, todas, né. Uma coisa é ir pra todos os lugares, outra coisa é estar acessível para todos. Tem suas múltiplas deficiências, toda vez que eu vou é, divulgar algum trabalho nas redes principalmente, que hoje é o maior canal de divulgação são as redes sociais. É, eu sempre, então; porque tem uma coisa muito clara, que é a descrição da imagem, mas além dessa descrição, o que mais eu posso fazer pra que a mensagem que eu tô passando visualmente, ela possa ser entendida por quem não tem a visão, né. Porque muitas coisas não são com palavras, eu fico pensando, palavras não podem descrever, né alguns sentimentos e eu fico pensando que a música, é algo que a gente pode atrelar a fotografia. A música traz a vibração, traz o sentimento, por isso que hoje é tô buscando cada vez mais os álbuns, recursos de audiovisual. Pra ter uma acessibilidade maior na fotografia, mas isso é um rolê de processo de construção, que a gente vai tentando, experimentando pra que ela seja acessível.

 

[trilha com instrumento percussivo]

 

Malta: é como a, a gente tem que ver que acessibilidade, ela quando, ela não se tem, é quando faz com que a gente se sinta defiça, como tenho dito, né (risos). Então, e fazer com que tenha legendas, a se dependendo do processo, ter também é interpretação de libras, né em vídeos e tal. Só que isso também não é acessível financeiramente, né a gente tem que ver também como é que pode se trabalhar nesse modo. Como é que o governo, também pode nos auxiliar nas produções é, com esse tipo de ferramenta, né não é fácil você acrescentar legendas, não é fácil você acrescentar a telinha lá com intérprete de libras. Não é acessível financeiramente, você é colocar audiodescrição, né realmente é um valor que muitas vezes foge do que por exemplo, o edital possa proporcionar. Então, mas eu acho que é um direito nosso, é o que a gente poderia correr cada vez mais atrás desse direito. E aqueles que puderem, né ter financeiramente a forma de agregar isso, é que faça, é do mesmo jeito que as pessoas não defiças, elas precisam realmente é se tornarem acessíveis, a acessibilidade, né como nos órgãos institucionais, tipo como na universidade, que é algo que eu tenho, é tido um trabalho "cotidiário", né, não é cotidiano lá de tentar ter acessibilidade, tentar ter um bom atendimento institucional mesmo. Eu acho que os artistas eles também, nós artistas devemos é nos tornar acessíveis a acessibilidade, né. Como é que eu como atriz por exemplo, posso fazer um trabalho que seja acessível a todos, é ou pelo menos é, obviamente que existem vários tipos de deficiência, e dentro da deficiência visual, por exemplo, tem vários tipos de percepções, da auditiva também. Então, não posso padronizar uma coisa, mas eu posso é acessar esses mundos, e ver como é que eu como atriz por exemplo, posso fazer um trabalho que chegue através dos sons que eu emano, através dos movimentos que eu faça, né. Assim também como, a artista, cantor né, e aí eu fico como é que eu posso chegar a uma pessoa com deficiência auditiva, então ela, ela simplesmente, ela pode sim, acessar aquele mundo, né como eu já ouvi de vários, de alguns amigos com quem eu trabalhei, né. Que conviver com a surdez, da vibração, né, dos sentidos, os movimentos ali quem tá tocando um instrumento. Existem pessoas que são, é que convivem com a deficiência auditiva que são, que usam aparelhos, então elas conseguem também acessar, obviamente que a forma como cada um escuta, é diferente, é seja com ou sem a deficiência auditiva. Então, eu acho que o escultor, a pintor, né a pintora e escultora; ela pode também, como é que eu posso fazer um trabalho que seja acessível a todos. Então, acho que eu não posso simplesmente focar em uma classe, eu não posso simplesmente focar em uma raça, em um gênero e simplesmente se eu sou um artista, eu tenho que levar a minha arte pra todos. Então, como é que eu posso fazer isso; eu acho que a partir do momento, que é eu me conecto com o mundo, eu posso conhecer muito mais do que o meu próprio mundo, eu posso ver além daquilo que eu enxergo né, (risos), fala uma pessoa com deficiência visual. Mas é, eu acho que é justamente isso, é como, quando eu começo a conviver com as pessoas e elas dizem: como é que eu posso te ajudar? assim, eu não sei como fazer. Eu falo: ‘simplesmente vamo começar, né’. Eu acho que a partir do momento que eu falo pra você, aquilo que eu tô precisando, como me abordar, como fazer algo comigo, é quando você vai conhecendo. Mas isso não significa que você tem que tratar todas as pessoas com deficiência visual desse jeito, porque cada um, tem um cada, cada cabeça é um mundo né, cada mundo gira de modo diferente. Então eu acho que é isso, é a gente se permitir aquilo que é diferente, né. Porquê, do mesmo jeito que eu, por exemplo não vou aceitar que uma pessoa simplesmente chegue: ‘olha Malta você vai ter que se comportar assim, se vestir assim, vai ter que andar desse jeito’, eu não vou fazer isso com o outro. Mas, aí eu posso entender o que; do mesmo jeito que tenho uma forma, né de eu tenho o meu jeito de agir, de vestir, de lidar e tenho as minhas limitações, de acordo com aquilo que eu necessito, a outra pessoa também, então. é saber lidar com aquilo que é diferente, né. Saber lidar com o outro e então é isso, eu acho que o papel do artista tá aí. Conhecer outros mundos, pra que se possa, é para que possa se tornar acessível a acessibilidade 

 

[trilha com instrumento percussivo]

 

Elizabeth: nas nossas primeiras conversas, que a gente ficou fazendo na construção desse podcast, é você me falou uma frase que ficou muito na minha cabeça, assim eu queria que você falasse um pouco sobre ela assim. Você disse, que os defiças são destinados a ver o óbvio; isso ficou na minha cabeça. Porque, eu acho que na realidade um pouco essa frase, tem um quê de, de literal no sentido de só que é isso, aqui de alguém te dizendo que, que tá acontecendo no lugar, como uma situação. Mas também, tem um pouco de subjetivo nessa, nessa frase assim, que aí eu acho que cabe um pouco pra todo mundo que é: “O que será que esperam da gente”, assim de querer que a gente faça; valendo, o que a gente tá vendo. Tem um pouco de reflexão, assim, de não, de não nos permitir a ir além mesmo do que tá ali. Essa nossa falta, nossa passividade, né como sociedade em si, ela também me atravessa, quando você fala essa coisa; do que a gente tá sempre querendo ou buscando, ou nos fazendo só enxergar o óbvio, que é meio que uma indignação, assim, uma frase dessa assim: “o que que é que te incomoda”?

 

Natalhinha: porque eu acho que a arte é de sentir mesmo. A gente, senti além, do que a gente tá vendo, ou ouvindo, ou pegando, tendo a sensação tátil. Eu acho que ela vai além, tipo a gente sente mesmo assim. É com, é o som que toca a gente, é uma luz que bate, dá uma sensação e leva a gente pra algum lugar, é eu acho que é isso assim. A arte ela tem esse poder, de deixar a gente ir para esse outro lugar também.

 

Malta: sobre é esse ponto né do óbvio, de ver, de assistir o óbvio, acho que é realmente, o não se permitir conhecer a pessoa defiça, né. É não conversar, é não se permitir algo diferente, (risos). Cada pessoa que lê um livro, ela vai criando um universo sobre, vai criando o cenário, vai criando, é as suas próprias é, perspectivas sobre o que tá lendo ali. Tanto que muita gente quando assiste o filme se decepciona, porque o que tá sendo produzido ali é o que o diretor, né quer trazer, é entre outros. Então por exemplo: a imagem ela não se concretiza somente pela visão, do corpo, né do, da da, dos olhos ali simplesmente, elas se se concretiza através daquilo que você também sente, daquilo que você é, imagina, né a imaginação, ela faz com que a imagem aconteça, e muitas vezes ela pode ser bem mais incrível do que tá sendo realmente ali retratado, né. É fisicamente falando, é eu acho que o óbvio é muito, muito vago. Ele é muito perto da proporção do que realmente a gente possa trazer pra si. Seja uma pessoa com deficiência visual, qualquer outra pessoa que não convive com ela, né. A nossa imaginação ela tem uma capacidade incrível de transformar até as coisas.

 

Elizabeth: isso que você fala, sobre o óbvio é muito isso que a gente quer trazer nesse podcast. Mas é trazer o artista pra essa responsabilização, porque só quem pode dizer o contexto, só quem pode explicar além do óbvio, é o artista. Ele pode fazer isso com sua obra. Ele pode, ao lançar uma obra, em qualquer plataforma que seja, ele pode sim fazer uma descrição do contexto daquilo. Pra ajudar as pessoas que vão fazer as audiodescrições, por mais, a terem também, essa, essa, esse material. Essa ferramenta.

 

Natalhinha: ainda que não seja uma explicação pra quem tá vendo, né. Tipo cada um vai ter a sua percepção quando ouvir, perceber aquela obra. Essa questão do contexto da da coisa mesmo, né, de você pensar, porque aquilo acontece daquele jeito e levar aquilo pra o público. 

 

Elizabeth: e aqui a gente faz um convite a todos os artistas, seus próximos trabalhos, nos próximos lançamentos, que tem esse tema presente na sua obra também. [trilha com instrumento percussivo] O sentido de uma obra de arte pode mudar dependendo do seu contexto ou de quem as vê, então as leituras de um mesmo objeto podem ser diferentes. Mas, isso não significa que uma seja melhor ou mais correta que as outras. Este podcast teve o argumento desenvolvido por Natalhinha Marinho e Elizabeth Caldas, e contou com trechos da Curadoria da Bienal de São Paulo e da escritora Renata Corrêa. É uma realização do Rotina Filmes, com roteiro e apresentação de Elizabeth Caldas trilha sonora original de Natalhina Marinho.

 

[trilha original de Natalhinha Marinho]

 

Natalhinha canta:

Não deixar a tristeza entrar aqui não quero mais sentir

a dor que invade meu peito agora estende a mão pra mim

olha aqui seu moço, eu não entendi nada que me disse naquela noite eu até fiquei tão só

olha aqui seu moço, eu não entendi nada que me disse nesta noite não me deixe só

estende à mão pra mim

eu olho quase tudo, mas no fundo

eu não vejo quase nada

eu olho quase tudo, mas no fundo

eu não vejo quase nada

eu olho quase tudo, mas no fundo

eu não vejo quase nada, nada.

 

[vinheta]

 

Olga Aureliano: Este canal é realizado pela ONG Ateliê Ambrosina de Maceió-Alagoas. E financiado pela Universidade Western do Canadá, comigo Olga Aureliano na mediação e na produção local, ao lado de Vanessa Malta e Bruna Teixeira, minhas parceiras de equipe. As antropólogas Nádia Meinerz e Pamela Block são pesquisadoras do projeto. E o roteiro, gravação e edição é de Elizabeth Caldas e Natalhinha Marinho, cocriadoras deste episódio. A finalização e vinheta é de Rodrigo Policarpo, e a transcrição é minha, com revisão de Bruna Teixeira e tradução para o inglês de Deise Medina. Até a próxima segunda.

 

[vinheta]

Card cinza claro, quadrado, do podcast Retratos do Brasil com Deficiência. No centro de um triângulo em diferentes tons de lilás, a cabeça branca da medusa, de perfil esquerdo. O triângulo tem pontas arredondadas e está na horizontal, voltado para a direita. A medusa é uma figura feminina, da mitologia grega, com serpentes no lugar do cabelo. O rosto dela é branco e as serpentes são vazadas, com contorno branco, fino e parecem se mover em todas as direções. Na parte inferior, o nome do podcast. A frase Com deficiência está em negrito e Podcast, em negrito, maiúsculo.