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Desmistificando a audiodescrição

#7

episódio

Título: Desmistificando a audiodescrição

Data de publicação: 31/1/2022

Cocriação: Deise Medina e Felipe Monteiro

Cidades/UF: Lauro de Freitas/BA e Resende/RJ

 

[vinheta]

Olga Aureliano: Desmistificando a Audiodescrição. Este episódio relata a trajetória dos profissionais Deise Medina e Felipe Monteiro, até a chegada ao universo da acessibilidade, mais especificamente da audiodescrição. Eles traçam um panorama desde a elaboração do roteiro de audiodescrição, passando pela equipe de produção, o público, o usuário, chegando à forma como a audiodescrição é disponibilizada. Tenham um ótimo episódio!

 

[vinheta]

 

[trilha ao fundo, durante todo o episódio]

Deise: olá Felipe, tudo bem contigo?

 

Felipe: oi Deise, tudo bem e você?

 

Deise: tudo ótimo, graças a Deus (risos).

 

Felipe: ah, então, tá ótimo. É isso aí!

 

Deise: vamos lá iniciar o nosso podcast pra o Retratos da Deficiência no Brasil, né, apresentando o nosso projeto fantástico das charges acessíveis.

 

Felipe: é tem bastante coisa pra falar, né Deise?

 

Deise: muita coisa, afinal de contas nosso percurso é longo.

 

Felipe: é verdade, nossa!

 

Deise: até chegarmos aqui, caminhamos muito.

 

Felipe: até chegarmos nesse projeto, né?

 

Deise: é verdade, é verdade, então. Vamos falar um pouquinho de nós inicialmente?

 

Felipe: é acho uma boa né, até para as pessoas saberem né de onde a gente veio, por que, que nós estamos aqui hoje (risos) né, falando sobre esse assunto né.

 

Deise: perfeito, perfeito. Bem, primeiro a gente começa com, à rigor, a gente começa a fazer nossa aula de descrição, né.

 

Felipe: é uma boa mesmo, isso.

 

Deise: eu sou Deise Medina, tenho pele clara, cabelo curto, castanho cacheado, já meio grisalho né (risos), começando a ficar grisalho. Uso óculos redondo, de armação redonda, marrom, óculos de grau, é tenho 1,55m, sou baixinha, um pouco gordinha, cheio de sardas (risos) essa sou eu, e você Felipe?

 

Felipe: ah então, eu sou Felipe Monteiro né, eu tenho deficiência visual, tenho 43 anos, eu tenho 1,70m, é, eu sou um homem branco, de pele morena clara, tenho cabelos, sobrancelhas e olhos castanhos escuros, é hoje aqui só a título de curiosidade eu tô com uma camisa azul, detalhes branco, tô com fone de ouvido aqui, preto também, tô na minha sala e através de mim uma cortina bege branca.

 

Deise: que legal, maravilha. É Felipe me fala um pouquinho sobre a sua formação, sua bionota. Faz uma bionota rápida pra gente.

 

Felipe: então, na verdade eu tenho que falar desde lá da minha infância, porque é onde tudo começou na verdade né.

 

Deise: uhum.

 

Felipe: porque a minha formação inicial, Deise, você sabe é com música, eu comecei na música, né no universo da música, então eu com 8 anos, eu comecei a estudar música. Aí eu comecei com a flauta doce, depois da sequência, eu fui pro teclado e por fim, o piano. E aí eu fiz todo aquele curso técnico de música né, que pra quem não sabe, o curso de música, ele acompanha mais ou menos a mesma quantidade de anos da escola regular. Então, eu fiz aqueles 13 anos que é mais ou menos o ensino fundamental, e o ensino técnico de música, do ensino médio né, de música.

 

Deise: uhum.

 

Felipe: e aí eu fiz os 13 anos, já sabia muito bem que eu queria fazer graduação em música né. Já sabia que eu queria seguir essa carreira, eu comecei a dar aulas de música com 14 anos.

 

Deise: nossa!

 

Felipe: então eu já tinha muita certeza sim, do que eu queria fazer sabe, não tinha dúvida nenhuma. Só que quando eu cheguei na época de fazer a graduação, de prestar o vestibular né, meus pais meio que (risos entre eles), aconselharam a que eu não fizesse a música. Mesmo eu tendo certeza de que era isso que eu queria.

 

Deise: uhum.

 

Felipe: que aí acabei a primeira graduação, que foi em tecnologia em processamento de dados, é um curso que nem existe mais, Deise.

 

Deise: (risos).

 

Felipe: foi no século passado, essa primeira graduação.

 

Deise: (risos).

 

Felipe: então, mas aí eu fiz a tecnologia em processamento de dados e aí na sequência, eu já ingressei no bacharelado em piano. Aí fiz o bacharelado em piano, depois fiz também licenciatura em educação artística, mas com habilitação em música né, que aí já tinha mais a ver, com a área que eu atuava né, que eu já estava lecionando aí alguns anos.

 

Deise: sim.

 

Felipe: Aí depois que passar do tempo eu me tornei diretor de uma escola de música na minha cidade, eu sou da cidade de Resende, né.

 

Deise: Aham.

 

Felipe: interior do Rio de Janeiro e aí eu sentia necessidade do curso de pedagogia. Aí, eu fiz pedagogia também.

 

Deise: nossa!

 

Felipe: e aí, foram 4 graduações, não foram pensadas.

 

Deise: Aham.

 

Felipe: mas acabou acontecendo assim no decorrer da vida, né da dessa parte profissional. E os anos foram passando, e eu sempre dando aulas particulares, dando aulas em escolas de núcleo comum, escolas específicas de música, tocando em muitos eventos: casamentos, missas, enfim, a vida seguiu em frente.

 

Deise: uhum.

 

Felipe: aos 36 anos, aí eu preciso fazer um recorte, porque aí quando eu me tornei uma pessoa com deficiência visual né que aí, eu tive meningite. Eu comecei a sentir dores de cabeça muito fortes, achando que era só uma gripe.

 

Deise: uhum.

 

Felipe: e aí comecei me automedicar mesmo, aquela coisa, aquela correria de professor. Dando aula de manhã, de tarde, de noite, nessa época eu dava aula em 4 escolas diferentes. Então eu trabalhava demais, assim, fora as outras coisas né, e aí as dores não passavam, elas estavam muito fortes. Até que consegui uma consulta com neurologista, e assim que eu entrei no consultório com neurologista, eu desmaiei, assim na sala, sabe, no consultório.

 

Deise: nossa!

 

Felipe: é, e esse consultório era num hospital, sabe, dentro de um hospital e aí quando eu acordei, eu já estava na maca. E a primeira pergunta que o neurologista fez: é se eu tinha tido contado com uma pessoa que tinha tido meningite. Aí eu comentei, ó na semana passada uma professora da escola onde eu trabalho faleceu de meningite.

 

Deise: nossa, Felipe!

 

Felipe: é, pois é, e aí na mesma hora eles me levaram pro isolamento na época, pra investigar, pra saber se realmente eu tinha meningite, aí eu passei o final de semana no hospital, até que veio o diagnóstico, que realmente eu estava com meningite.

 

Deise: meu Deus.

 

Felipe: só que a meningite que eu estava, não era meningocócica, porque a meningocócica geralmente a pessoa morre rapidamente.

 

Deise: uhum, era viral.

 

Felipe: é, era viral, e aí começou o meu processo de internação, eu achando que ia passar só um final de semana no hospital.

 

Deise: (risos)

 

Felipe: fiquei um ano, Deise.

 

Deise: Deus!

 

Felipe: aí você pode imaginar o que que eu passei no hospital, durante um ano né.

 

Deise: gente!

 

Felipe: inclusive até lancei um livro, que eu faço esse recorte né Deise, eu falo sobre esse momento que eu vivi no hospital. Esse período de transição, foi muito marcante assim na minha vida né, passei por várias situações né, desde ficar em cadeira de rodas: fiquei surdo, perdi olfato, perdi a visão, usando fralda, aquela coisa toda né.

 

Deise: Sei, eu sei.

 

Felipe: período passou, sai do hospital, já sem visão e sem o olfato, tive que enfrentar a vida aí né. Aí comecei a ter mais contato com as tecnologias assistivas né.

 

Deise:uhum.

 

Felipe: conhecer o brailler, a bengala e por aí vai, até que eu cheguei nos grupos de whatsapp, de pessoas com deficiência visual que aí, me deram muito suporte e rapidamente eu, eu fui começando a ter contato aí com os ambientes que oferecesse recursos de acessibilidade.

 

Deise: sei.

 

Felipe: mas eu sempre cito um que é bem importante, foi o primeiro contato assim, mas direto com audiodescrição, que foi numa peça de teatro em Goiânia na cidade de Goiânia.

 

Deise: sim.

 

Felipe: É o Pequeno Príncipe, uma amiga me convidou para assistir essa peça que ia ter audiodescrição, e eu nem sabia o que era audiodescrição nessa época, aí eu falei, ah vou ver né, vou ver como que é isso né, recebi os fones, assisti à peça, gostei muito, eu tenho que admitir que eu fiquei um pouco confuso né. Eu não sabia se eu prestava atenção na fala dos personagens, ou se eu prestava atenção na audiodescrição, mas eu saí encantado de lá porque eu percebi que a audiodescrição ia me abrir assim muitas possibilidades. Que eu saí do hospital Deise, achando que eu nunca mais ia a um cinema, eu nunca mais ia ao teatro, que eu nunca mais ia assistir um concerto né, porque isso fazia parte da minha vida, porque eu sempre trabalhei com música, sempre fui das artes, então a cultura sempre fez parte assim do meu dia a dia né.

 

Deise: uhum.

 

Felipe: então quando eu saí do hospital, eu imaginei que aquilo tudo, tudo tivesse acabado.

 

Deise: uhum.

 

Felipe: e quando eu conheci audiodescrição, eu percebi que meu mundo ia ser completamente diferente. E aí eu comecei a ir atrás né, a minha cidade aqui em Resende, ela fica entre duas capitais né, que é o Rio de Janeiro e São Paulo.

 

Deise: sim.

 

Felipe: Então eu tenho uma certa facilidade de estar nessas duas capitais.

 

Deise: sim.

 

Felipe: aí eu comecei a buscar né, espaço que tivesse audiodescrição, saber mais sobre audiodescrição, até que num grupo desses aí da vida, alguém falou assim: “mais Felipe, você trabalha com audiodescrição”? porque eu sempre comentava né, eventos que eu ia, as experiências que eu tinha. Aí eu falei: não, não sou consultor, não sabia nem o que que era ser um consultor em audiovisual, verdade é essa.

 

Deise: (risos).

 

Felipe: e aí as pessoas falavam: “nossa deveria estudar, porque você faz muitos apontamentos importantes, não sei o que”, aí eu comecei a estudar. Fiz cursos livres, cursos de extensão, né, participei de oficinas, congressos, seminários. Até que eu ingressei na primeira especialização.

 

Deise: sim.

 

Felipe: que foi pela Universidade Estadual do Ceará.

 

Deise: isso.

 

Felipe: aí cursei a audiodescrição lá, e aí antes de terminar essa especialização, eu já ingressei na acessibilidade cultural pela UFRJ.

 

Deise: uhum.

 

Felipe: isso foi muito importante também, que além da audiodescrição; que faz parte né, das disciplinas lá do curso, e eu tive mais contato com as outras deficiências. Principalmente a deficiência intelectual.

 

Deise: sim.

 

Felipe: pra mim, foi bem importante assim, ampliou muito os meus horizontes.

 

Deise: uhum.

 

Felipe: mas aí eu fiz também, o aperfeiçoamento em audiodescrição, na escola, pela Universidade Federal de Juiz de Fora. E fiz o aperfeiçoamento em tecnologias digitais aplicadas à educação, é, pelo Instituto Federal do Espírito Santo.

 

Deise: sim.

 

Felipe: e aí foram essas especializações aí que eu fiz. E atualmente Deise, você sabe né, eu tô, tô no mestrado e a minha pesquisa de mestrado é justamente aliando aí essas áreas de trabalho né. É audiodescrição, como recurso pedagógico no desenvolvimento da musicalização né, nessa perspectiva inclusiva né, tanto em ambientes formais, como informais é,  e aí atualmente, eu trabalho né como consultor; não só em música.

 

Deise: uhum.

 

Felipe: como, com acessibilidade, acessibilidade web, acessibilidade cultural e claro né, também como consultor em audiodescrição.

 

Deise: bombril, mil e uma utilidades (risos).

 

Felipe: é exatamente, mas eu fico muito feliz, Deise.

 

Deise: (risos).

 

Felipe: de ter podido unir as áreas né.

 

Deise: nossa!

 

Felipe: porque quando eu sai do hospital, eu fiquei pensando; como é que eu vou fazer, eu vou trabalhar, eu vou dar aula, vô né, aquelas questões todas, que eu acho que é natural de uma pessoa que tem uma deficiência adventícia né, é diferente de uma pessoa que nasce com a deficiência.

 

Deise: verdade.

 

Felipe: então eu fiquei pensando, será que eu vou continuar trabalhando com música, como vai ser minha vida, né, será que eu vou ter que aposentar, aí não vou fazer mais nada, enfim.

 

Deise: uhum.

 

Felipe: eu, é na verdade eu tive um upgrade aí na minha vida.

 

Deise: exato, você que ampliou muito seus horizontes né.

 

Felipe: exatamente.

 

Deise: que coisa fantástica.

 

Felipe: além da música, eu hoje em dia, eu também trabalho com acessibilidade.

 

Deise: sim, sim.

 

Felipe: e fico muito grato, mas já falei muito Deise, agora conta.

 

Deise: (risos).

 

Felipe: conta um pouquinho da sua história.

 

Deise: agora que eu ri, (risos).

 

Felipe: muita coisa eu não sei de sua história né.

 

Deise: não muita coisa você não sabe.

 

Felipe: sei de uma parte pra cá, mas lá de trás mesmo, eu acho que eu não sei.

 

Deise: então, tem uma coisa que tem que é, muito similar entre nós, que é a questão da, do envolvimento com a tecnologia, né.

 

Felipe: sei, uhum.

 

Deise: por muito tempo eu dei aula de informática, no Senac né, que é essa instituição enorme aqui, por muitos anos e eu dei aula de todos os softwares que você imaginar, e no final da linha, eu já estava trabalhando com os softwares de computação gráfica, né.

 

Felipe: tá, mas era aula tipo de Windows, assim essas coisas?

 

Deise: isso, eu comecei dando aula de MS-DOS.

 

Felipe: olha isso, [incompreendido] também.

 

Deise: exato, depois Windows, e aí foi caminhando, caminhando, cheguei lá na computação gráfica, onde eu fiquei uma boa parte já no final; final porque?  Porque daí eu decidi finalmente ir pra faculdade.

 

Felipe: certo.

 

Deise: porque eu entrei na faculdade já bem, bem, eu tinha mais de 30 anos, quando eu entrei na faculdade.

 

Felipe: olha.

 

Deise: porque eu perdi meu pai muito cedo, eu tinha 13 anos de idade.

 

Felipe: aí teve que focar no trabalho né?

 

Deise: exato, sendo a filha mais velha, tinha duas irmãs para criar, pra ajudar minha mãe a criar né, então eu assumi as responsabilidades da casa no possível. Eu tive que trabalhar mesmo, pra segurar as contas de casa né e aí por conta disso eu não tive tempo de estudar, de seguir com o estudo, ir para a faculdade, por exemplo, né.

 

Felipe: certo.

 

Deise: então eu finalmente entrei na faculdade aos 35 anos me parece, hoje eu tenho 53.

 

Felipe: olha só Deise, oh isso aí é uma coisa que eu não sabia.

 

Deise:  é sério (risos) pois é, daí eu fiz a graduação em letras.

 

Felipe: é porque geralmente quando a gente deixa pra estudar, a gente fica essa lacuna né a pessoa acaba desanimando.

 

Deise: desanimando.

 

Felipe: é mais difícil né.

 

Deise: pois é, comigo aconteceu o contrário. Na verdade, eu sempre quis ir para a faculdade, mas por essas questões eu nunca pude.

 

Felipe: aham.

 

Deise: de fato, eu tive que me dedicar a outras questões e eu sempre trabalhei muito, muitas horas por dia pra fazer dinheiro, né. E aí, então eu entrei pra questão, eu comecei a dar aula de inglês, na verdade eu comecei a dar aula de informática, numa empresa hoje já não existe mais a Real & Dados. Dei aula de informática por muito tempo, mas aos 18 anos, eu fui trabalhar numa multinacional aqui; eu não falava inglês, eu ia ser secretária né.

 

Felipe: sei.

 

E foi uma multinacional, é de uma sucursal de uma empresa lá do Texas. E todos os funcionários que estavam no Brasil naquela época, que vieram implantar a empresa aqui, a fábrica, eles, eles eram texanos, e não falavam português, portanto só falava português: eu, o porteiro, o cozinheiro e o motorista.

 

Felipe: meu Deus!

 

Deise: (risos), quem fazia a ponte entre nós e eles, era uma secretária brasileira que veio dos Estados Unidos com eles.

 

Felipe: ah, entendi.

 

Deise: então, ela era nossa ponte, mas como eu era secretária, eu era secretária dela e ela secretária deles, eles precisavam sair sempre para fazer reuniões na Petrobrás e tal, daí eles disseram, um deles me chamou, e falou “olha procura um curso de inglês, você precisa de aprender inglês.”. Daí eu fui, procurei, e eles começaram a pagar meu curso de inglês, na época eu não tinha como pagar um curso de inglês, porque eu tinha que sustentar minha família.  Mas a empresa pagou para mim, por um ano, que foi o tempo que eles ficaram no Brasil. Depois desistiram, voltaram, mas aí eu já não quis mais parar, porque já estava dentro da escola de inglês. Eu propus trocar pra eu seguir fazendo curso e concluir e propus trocar é trabalho de informática, eu ficava então à noite lá fazendo, trabalhando no CPD deles, para manter o curso.

 

Felipe: ah, então era um curso grande né?

 

Deise: era um curso longo, mas além de ser um curso.

 

Felipe: não, eu digo assim, um curso com uma estrutura....

 

Deise: sim, a escola tinha uma estrutura muito boa, muito boa, e aí eu fiz todo restante do curso lá. Fiz, vários semestres de pós-graduações de pronúncia, de audição, de morfologia, enfim, uma série de especializações. E a partir daí, eu me tornei professora dessa escola. Participei do processo seletivo, e passei a dar aula de inglês. Então comecei a dar aula de inglês quando eu tinha 20, 21 anos, coisa assim.

 

Felipe: olha.

 

Deise: e paralelo a isso, eu dava aula de informática também, então eu trabalhei por muito tempo fazendo as duas coisas.

 

Felipe: sei.

 

Deise: quando finalmente eu disse assim, “olha eu preciso ir pra faculdade, eu quero fazer faculdade, eu não vou ficar por aqui”, daí eu entrei na faculdade de letras, letras, com língua inglesa, na universidade, na Faculdade Jorge Amado, aqui em Salvador.

 

Felipe: hum, olha.

 

Deise: eu fiz o curso de letras todo, e foi curioso, porque no final o meu TCC foi em tradução, análise da tradução do livro do Quincas Berro d’Água pro inglês.

Felipe: hum, sei.

 

Deise: e foi muito bem aceita a defesa e tal, até sugeriram, que publicasse, etc..., e a minha professora de inglês na época, disse assim: “Deise, por que você não procura Eliana Franco na UFBA?”, na federal, né? Eu falei eu não sei como chegar a essa pessoa. Eliana, teoricamente naquela época era inatingível para mim né.

 

Felipe: é (risos).

 

Deise: é exatamente, mas aí eu fui.

 

Felipe: mas conta aí um pouquinho, quem é, Eliana Franco?

 

Deise: pois é, Eliana Franco, não é nada mais, nada menos, do que a referência em tradução audiovisual no Brasil, e fora do Brasil. Ela defendeu a primeira tese em tradução audiovisual no Brasil, primeira peça que há no Brasil de tradução em audiovisual é dela, onde ela trabalhou com voice over.

 

Felipe: isso.

 

Deise: e então ela é uma senhora referência.

 

Felipe: ela tem até um livro publicado né?

 

Deise: sim, sim, ela é referência dentro e fora do país. Hoje ela mora em Portugal e segue sendo um nome respeitadíssimo.

 

Felipe: sim.

 

Deise: hoje somos amigas pessoais, graças a Deus, somos né Felipe?

 

Felipe: é somos (risos).

 

Deise: somos amigos pessoais dela, mas na época ela era inatingível pra mim.

 

Felipe: é tá, mas então você já tinha ouvido falar da Eliana Franco?

 

Deise: sim, Sônia, minha professora de inglês na faculdade na época, me falou “procura ela”.

 

Felipe: olha só!

 

Deise: daí quando eu conclui a graduação, eu submeti, abriu inscrição pro mestrado na UFBA, e eu decidi submeter um projeto pra, pra essa, esse mestrado.

 

Felipe: ah, então você fez a graduação, e depois logo na sequência já foi pro mestrado.

 

 

Deise: exato, exato, porque aí eu tentei o mestrado, só que todo mundo me desencorajava, falava assim: “olha, você vai perder tempo, na UFBA só entra alunos que foram alunos dos professores.  

 

Felipe: egressos, né, que fizeram a graduação lá.

 

Deise: isso, eu falei assim, “olha o não eu já tenho; eu vou atrás do sim”.

 

Felipe: é.

 

Deise: e daí eu submeti.  Eliana foi uma das pessoas para quem eu submeti o projeto, a gente tem que submeter pra três professores. Ela foi um deles, e ela aceitou meu projeto.

 

Felipe: ah, você já colocou ela como opção de orientação?

 

Deise: eu coloquei ela como primeira opção, sem nunca saber nada a respeito, apenas ter ouvido.

 

Felipe: você leu o Lattes dela, né?

 

Deise: é exatamente, aí ela me aceitou, aceitou meu projeto, eu passei por todas as etapas da seleção enfim, e comecei o mestrado no ano de 2000, eu passei em 2009 segundo semestre, as aulas começaram no primeiro semestre 2010. E aí lá na UFBA, sendo orientanda da Eliana, ela tinha um grupo de pesquisa chamado TRAMAD - Tradução, Mídia e Audiodescrição. E foi aí que se deu o meu encontro com acessibilidade. Porque o meu projeto, tudo bem, todo mundo que trabalha com tradução, trabalha com acessibilidade, que esse é o grande papel da tradução.

 

Felipe: tradução já é uma....

 

Deise: permitir acesso, né. Então, o meu projeto era pra trabalhar com as legendas de um filme, acho que foi Cidade de Deus que eu propus. Trabalhar com a tradução das legendas do Cidade de Deus.

 

Felipe: por que legenda? Da onde saiu essa legenda?

 

Deise: pois é, porque assim eu tenho, eu sou meio aficcionada ao cinema, né?

 

Felipe: sim.

 

Deise: e daí como eu tinha trabalhado com tradução do livro Quincas Berro d’Água no TCC, quando eu pensei em ir para UFBA, me interessou muito quando eu encontrei nas linhas de pesquisa, que havia uma linha de pesquisa Tradução Audiovisual. Daí eu decidi transpor da questão da tradução literária pra tradução audiovisual, e aí entrei para as legendas. E aí que vem a proposta das legendas.

 

Felipe: tá, mas você aí nessa época, você não tinha conhecimento sobre as técnicas da legenda, né? Da legendagem.

 

Deise: nada, só pensava.

 

Felipe: era só um desejo mesmo?

 

Deise: isso, isso, eu queria conhecer, eu queria me aprofundar nessa área. Mas não tinha experiência absolutamente nenhuma.

 

Felipe: e nessa época você tinha o que? Uns 42 anos mais ou menos.

 

Deise: isso, isso, exatamente, exatamente. Daí Eliana como eu falei, então, aí eu entrei e entrei automaticamente pra o grupo de pesquisa de Eliana, que era o TRAMAD.  Um semestre depois a vice coordenadora, que era Renata Mascarenhas, Renata..... esqueci o nome, lá da US.

 

Felipe: é Mascarenhas, mesmo.

 

Deise: é Mascarenhas, né? Pronto. Ela saiu da vice coordenação e Eliana me convidou, se eu gostaria de assumir a vice coordenação do grupo. E assim fiquei, me tornei é vice coordenadora do TRAMAD, por mais de 10 anos, 11 e 12 anos eu fui vice coordenadora do TRAMAD. E no TRAMAD, então, eu tive toda, toda a introdução na área de tradução, tradução audiovisual. Então, nós trabalhávamos com legenda, nós trabalhávamos com dublagem, com voice-over e com audiodescrição.

 

Felipe: ali que ‘cê’ foi conhecer audiodescrição, nesse momento?

 

Deise: ali que eu fui conhecer a audiodescrição. Então foi ali que comecei meus estudos na área, no campo da tradução, dos estudos (...)

 

Felipe: você, nunca tinha ouvido falar?

 

Deise: nunca, nunca. Foi através do TRAMAD e de Eliana Franco, que eu passei a estudar. Passei a fazer parte dos estudos da tradução, ou melhor, a estudar isso e o campo da tradução audiovisual, mais especificamente, né.

 

Felipe: sei.

 

Deise: então, foi quando conheci as técnicas, as regras todas para legendar etc. etecetera, dei aula de tradução audiovisual na UFBA em vários momentos, e a audiodescrição em si, que nós passamos a fazer parte de vários projetos, que surgiam, grupos de dança lá, na escola de dança da UFBA. Sempre que tinha algum espetáculo, convidavam nós do TRAMAD pra fazer a audiodescrição desse espetáculo. Então foi aí que veio meu envolvimento e vivência, com esse processo, né.

 

Felipe: sei. uhum.

 

Deise: ou seja, eu bebi da fonte diretamente, com a grande, a grande referência em tradução audiovisual, né?

 

Felipe: é.

 

Deise: eu tô muito feliz nesse sentido, e eu devo muito a isso. A esse período, a essa oportunidade que Eliana me deu. Pra estar hoje aqui.

 

Felipe: que bacana, nossa (risos).

 

Deise: fantástico, fantástico, acho que um negócio incrível. Ela é realmente uma pessoa fantástica, humilde. Disposta, abrir as portas.

 

Felipe: verdade, verdade, eu também, eu aprendo muito. Aprendo muito sempre.

 

Deise: a gente que convive com ela, sabe o quanto ela tá sempre disposta a ensinar.

 

Felipe: ei, eu sempre falo que ela é minha madrinha.

 

Deise: (risos)

 

Felipe: na audiodescrição, é. Porque, os primeiros contatos que eu tive assim né, inclusive foi no Rio de Janeiro, uma época que ela morava no Rio de Janeiro.

 

Deise: sim, sim.

 

Felipe: e aí logo eu pensei: Eliana sim, e ela nossa, me ajudou demais no início assim, onde eu não sabia nem para que lado eu tinha que ir. Que no início a gente fica meio sem direção mesmo.

 

Deise: perfeito, exatamente.

 

Felipe: realmente, eu sou muito grato, sou muito grato mesmo.

 

Deise: ela é muito generosa, muito generosa.

 

Felipe: aham

 

Deise: e aí, quando, como, que a gente se conheceu finalmente?  Então você conheceu a Eliana de um lado, eu conheci Eliana de um outro.

 

Felipe: é.

 

Deise: mas a gente não tinha se encontrado em nenhum momento.

 

Felipe: é, a gente ouvia falar um do outro né, por conta da Eliana.

 

Deise: exato.

 

Felipe: eu lembro que Eliana pelo menos pra mim, ela falava: “você tem que conhecer a Deise, você vai gostar muito da Deise.

 

Deise: (risos)

 

Felipe: é uma pessoa incrível, você tem que conhecer. Aí surgiu a oportunidade da gente se conhecer pela primeira vez, né.

 

Deise: aham, e quando foi Felipe? você lembra exatamente?

 

Felipe: é foi, no terceiro encontro Internacional de audiodescrição, esse encontro aconteceu em Recife né, foi em abril de 2017.

 

Deise: nossa! Que memória.

 

Felipe: foi isso mesmo. É porque eu guardei essa data também, foi um encontro muito importante né, tinha muita gente, muita gente bacana. Como a gente aprendeu nesse encontro.

 

Deise: nossa!

 

 Felipe: e também teve o Festival “Ver - Ouvindo”, né.

 

Deise: hum, sei.

 

Felipe: dentro do encontro Internacional, que também é um festival de referência aí, já está no nosso calendário né.  Já tem mostra competitiva, né de roteiros de audiodescrição. Enfim então é um festival, assim super importante também que acontece em Recife, e aí esse evento foi bem grande assim né.

 

Deise: uhum.

 

Felipe: e também além de tudo isso, ainda aconteceu a fundação da Abade que é a Associação Brasileira de Audiodescrição.

 

Deise: verdade!

 

Felipe: foi no dia 27/04/2017. É uma data bem importante, assim bem marcante então, não tem como esquecer assim.

 

Deise: tem não, tem não. É verdade.

 

Felipe: e aí a gente se esbarrou nesse evento né Deise?

 

Deise: (risos), pois é, foi aí que a gente se encontrou, isso então 2017 né?

 

Felipe: isso 2017. Já vão pra 5 anos. Não, 4 anos.

 

Deise: exato, então eu tinha concluído o mestrado, concluí o mestrado em 2011.

 

Felipe: sei.

Card cinza claro, quadrado, do podcast Retratos do Brasil com Deficiência. No centro de um triângulo em diferentes tons de lilás, a cabeça branca da medusa, de perfil esquerdo. O triângulo tem pontas arredondadas e está na horizontal, voltado para a direita. A medusa é uma figura feminina, da mitologia grega, com serpentes no lugar do cabelo. O rosto dela é branco e as serpentes são vazadas, com contorno branco, fino e parecem se mover em todas as direções. Na parte inferior, o nome do podcast. A frase Com deficiência está em negrito e Podcast, em negrito, maiúsculo.