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Autismo e mercado de trabalho: experiências, desafios e opressões

#5

episódio

Título: Autismo e mercado de trabalho: experiências, desafios e opressões

Data de publicação: 17/1/2022

Cocriação: Annebelle Leblanc e Ricardo Oliveira

Cidades/UF: Campo Grande/MS e São Paulo/SP

 

 

[vinheta]

 

Olga Aureliano: “Autismo e mercado de trabalho: experiências, desafios e opressões” é o episódio de hoje do Retratos Defiças, o canal do projeto Retratos do Brasil com Deficiência realizado por duplas cocriativas de todo o país. Neste episódio, Ricardo Augusto e Annebelle Arco-Íris debatem sobre a interseccionalidade do autismo, o mercado de trabalho e a pauta trans. Então, vamos?

 

[vinheta]

 

[trilha]

Annebelle: olá a todas, olá a todes, olá todos, meu nome é Annebelle Leblanc. Eu sou professora de canto, eu sou professora de teoria musical, sou professora de violão, professora de inglês, sou professora de alemão, eu sou compositora, produtora musical, sound designer, técnica em mixagem de som e poetisa nas horas vagas. Sou ativista e membra da ABRAÇA. Eu sou autista, sou disléxica e borderline. Eu tenho 29 anos e eu sou uma mulher trans.

 

Ricardo: olá, me chamo Ricardo. Eu sou autista, ativista, sou membro da Associação Brasileira para Ação por Direito das Pessoas Autistas, que é a ABRAÇA. Sou formado em Comunicação Social pela Escola Superior de Administração, Marketing e Comunicação, que é a ESAMC, com muito orgulho inclusive; tenho uma especialização em Mídias e Redes Sociais pela Universidade Anhembi Morumbi e atualmente sou estudante de especialização de Direitos Humanos na América Latina, pela UNILA, que é a Universidade Federal de Integração Latino-Americana. Também faço parte do grupo de pesquisa chamado Traduzir-se, que aborda sobre questões relacionadas a autismo e neurodiversidade, a partir de uma perspectiva transdisciplinar, né? É um grupo de pesquisa da Universidade Federal do Vale do Jequitinhonha, em Mucuri; e também tenho um canal no YouTube, faço produção de conteúdo, principalmente no YouTube, voltado ao autismo e política chamado Autismo Pensante. Atualmente tenho 29 anos, resido em São Paulo, porém eu nasci em Santos, né? Litoral de São Paulo.

 

[trilhas]

 

Annebelle: em relação ao mercado de trabalho, tá? Em relação ao mercado de trabalho, como uma pessoa PCD, além da questão, como eu falei, né? De eu ser autista, disléxica e border, eu passei por algumas situaçõezinhas, então assim, eu tenho transtorno de estresse pós-traumático, eu passei um caso muito raro de 21 anos despersonalizada, então eu tenho transtorno de despersonalização. Nesse caso, eu já não passo mais por despersonalização, mas eu fiquei 21 anos despersonalizada de forma ininterrupta. E aí, se vocês já viram aquele filme “De repente 30”, acho que a melhor forma de eu explicar a minha vida é dizer “De repente 30 nunca foi tão real”, sabe? Então basicamente é isso, sabe? É a melhor forma de eu conseguir explicar. Então assim, em relação ao mercado de trabalho, já é difícil você incluir pessoas autistas no mercado de trabalho, agora imagina você incluir pessoas autistas que passaram por algumas questões, como por exemplo despersonalização, como por exemplo, né? Questão de depressão, entre outras questões. Que no final das contas, a gente passa por uma coisinha, uma coisa mágica, uma coisa, eu peço desculpa em reação as pessoas autistas, porque eu sou muito sarcástica, eu sou muito irônica, então assim isso é do borderline, então quando eu falo “mágica” eu tô sendo extremamente sarcástica. Então assim, uma coisa mágica, uma coisa fantasiosa, de novo sarcasmo, chamada capitalismo. Então, o capitalismo é uma coisa que assim, o capitalismo não se importa com você, o capitalismo pouco se importa, ele tá se lixando pra você e é tipo, “- Ah, você é PCD? Eu não ligo, eu nem sabia que você exista, você não dá dinheiro, sabe? Morra!”. É isso, por quê? Porque o capitalismo ele só se importa com as pessoas numa caixinha, numa droga de uma caixa, numa caixa perfeita que não existe, sabe? Então assim, pra você caber o capitalismo, o quê que você precisa ser? Você precisa ser uma pessoa magra, você precisa ser uma pessoa sem deficiência, você precisa ser uma pessoa cis, você precisa ser uma pessoa branca, você precisa ser uma pessoa mentalmente saudável e tipo assim, caramba, mentalmente saudável no capitalismo, boa sorte com isso, tá bom? Mentalmente saudável, você precisa ser um cidadão do bem, de bons costumes, sabe? De direita. Então assim, você precisa ser literalmente um padrão, modelo ideal que só existe na ideia bolsonarista, sabe? Tipo assim, eu realmente não consigo acreditar que exista esse cidadão perfeito, sabe? Tipo, eu realmente não consigo acreditar. Nem a própria burguesia é cidadã perfeito, sabe? Tipo, por mais que tipo, a própria burguesia deve ter depressão, a própria burguesia deve ter trauma, sabe? Nem a própria burguesia eu acredito que é cidadão perfeito, porque pessoas, sabe? Pessoas com pessoas geram traumas, então é impossível. Mas enfim, retomando ao ponto, então quando eu vi essa situação, primeira coisa que eu vi é “- preciso de um emprego”; e aí, por que, né? Porque eu tava num corpo de 26 anos pra 27 e então, assim preciso de um emprego. E aí eu estava caçando empregos, e aí tipo, a primeira coisa que me falaram foi de um tal de site que era Catho, e aí esse site era um site que era gratuito, era um site de vagas, e eu coloquei meu nome nesse site, vários sites do tipo, sabe? E aí sempre colocava lá “pessoa com deficiência” e eu nunca era chamada. Na época eu me apresentava como uma pessoa cis, só pra constar, eu não sabia que eu era trans na época, fui descobrir que era trans poucos meses depois. E aí, eu não era chamada pra nenhuma, nenhuma entrevista. Quando eu me descobri trans, eu resolvi colocar “pessoa sem deficiência” e aí, finalmente aconteceu. A magia de eu começar a ser chamada para entrevistas, olha só que curioso, olha só que fantástico e, de novo, eu estou sendo sarcástica. Então assim, sabe, por quê? Porque o capitalismo não quer que você tenha um emprego quando você é PCD. Quando você é PCD, e eu peço desculpa dependendo da faixa etária que estiver ouvindo, quando você é PCD o capitalismo quer que você se foda! É essa a verdade, o capitalismo quer que você se foda. E aí eu consegui um emprego, né? No mais baixo nível existente que era call center, sabe? Mas era um emprego, e era o meu primeiro emprego. Pra pequena Anne era fantástico, era maravilhoso, mas obviamente, né? Fui na entrevista, fiz a entrevista, consegui o emprego e aí quando eu consegui o emprego, daí eu avisei: “- Olha só gente, eu sou autista”. Ah revelações, sabe? E aí né, pois é, a gente não tem a questão de... E aí já começaram as justificativas, falaram que eles tinham a questão de inclusão e tudo mais, detalhe eu consegui o emprego justamente por conta que essa empresa, essa multinacional que eu não posso falar o nome, mas essa multinacional eles não tinham uma questão de vagas PCDs no sentido de, como que eu vou explicar isso? Eles não tinham diferenciação entre PCDs e não PCDs, era isso, mas por lei eles tem que ter vagas PCD, então eles tinham vagas PCD, mas não ofertavam, por assim dizer, por quê? Capitalismo, capitalismo quer que você se foda. E aí, né? Depois que eu consegui a vaga eu falei: “- Olha aí, eu sou autista! Aaaahhhh surpresinha!”. E aí depois que eu consegui na primeira semana de teste, eu falei pra eles: “- Olha só, eu sou trans. Ahhhhh surpresinha em dobro!”. E aí eu passei um mês lá, passei dois, no terceiro mês, né? Que é os meses de experiência, literalmente no dia da contratação eles me demitiram, tá? Por que eles me demitiram?

 

Ricardo: porque será, né?

 

Annebelle: porque será?! E aí eu fiquei me questionando isso por meses, tá? Só pra constar. Mas eu não sabia o porquê e, tipo assim, eu usei os argumentos: “- Não, não, tem a vaga PCD”; e eles falaram: “- Infelizmente a vaga PCD está cheia em relação a cotas.”. Detalhe, eu já tinha conseguido o laudo PCD pra empresa, a própria empresa me forneceu laudo PCD. Tipo assim, eu tinha conseguido em relação a isso, eu tinha conseguido tudo, tudo em relação a isso, sabe? Tinha conseguido tudo. Aí nessa época, tipo assim, eu preciso dar um contexto histórico pra vocês, por quê? Porque eu fui contratada no final de 2019 e aí né? Passou 2019, janeiro de 2020, fevereiro de 2020, março de 2020, e aí 2020, se vocês não lembram, eu preciso lembrar a todos vocês que estão ouvindo isso, aconteceu algo incrível no mundo - de novo, sarcasmo e ironia - algo incrível no mundo chamada pandemia, coronavírus. E aí, essa coisa maravilhosa - de novo ironia - chamada coronavírus, sabe? Me fez entrar de forma imediata, e aí hoje eu sei exatamente o porquê me fez entrar de forma imediata, em uma coisa chamada quarentena, eu fui a primeira pessoa do call center a entrar em quarentena e a primeira pessoa a entrar em homeoffice.

 

Ricardo: eu já imagino porquê, né?

 

Annebelle: é, então, por que será, sabe? Sabe o que é mais engraçado? Tipo assim, uma semana antes, tipo, eu minto, uma semana não, poucas semanas antes eu tinha avisado pra empresa, eu falei de forma pública porquê tipo assim, só a moça do RH sabia que eu era trans, só a moça do RH sabia que eu era não-binária, chegou num ponto que eu falei: “- Não aguento mais, chega!”. E aí, eu falei: “- Eu sou uma mulher trans.”. E aí, eu passei a exigir que eu fosse chamada pelo meu nome, né? Eu prefiro geralmente ser chamada por Anne. E aí eu falei com a moça o RH e aí ela chamou meu chefe, sentou pra conversar, sabe? E aí, tipo assim, todo mundo em relação ao meu trabalho, sabe? Tipo, tinha que me chamar pelo meu nome e pelos meus pronomes femininos. Chega, cansei. Porquê eu tava decidida em relação a isso, eu tava decidida que eu ia começar a usar vestimentas femininas e aí, tipo assim, na semana da pandemia, literalmente na semana da pandemia, eu tava decidida: “- Finalmente, eu vou comprar roupas femininas, eu vou furar minhas orelhas, vou começar a transição em si, minha pro mundo de forma social em relação a isso.”. Foi, chega. E aí, foi na mesma semana que estourou a pandemia, foi na mesma semana que tipo, o mundo acabou, apocalipse e foi na mesma semana que eu fui a primeira a ser mandada pro homeoffice. Primeira. Por que será? Por que será? Né? E aí eu fui demitida e nesse dia e aí eu falei: “- Não, não, eu tenho isso aqui, calma gente, sabe? Eu tenho a vaga PCD.”. E eles falaram: “- Infelizmente a cota tá cheia.” Aaaahhhh, e aí eu fiquei desesperada, fui demitida, sabe? Me pagaram tudo certinho, bonitinho. E aí tipo assim, quando eu fui demitida a primeira coisa que eu fiz foi, tipo assim, juntar todas as provas possíveis, porque tipo assim, tudo que era possível porque eu pensei: “- Não, eu preciso fazer alguma coisa a respeito disso”. Mas eu não pensava que era transfobia na época, meses depois eu percebi ‘opa, é transfobia’. E aí eu consegui ótimos advogados, meus advogados amores da minha vida, sabe? Eu tô exagerando pra caramba, sabe? É uma hipérbole, mas tipo assim, meus advogados que me ajudaram e tipo, meu deus do céu se não fossem eles. Aí eu processei essa empresa e eu venci esse ano, por que? Eu venci por conta de transfobia e capacitismo. Então, chupa capitalismo, chupa mundo, sabe? Chupa essa multinacional desgraçada dos infernos. Eu venci sozinha praticamente, sabe? Eles fizeram uma peça maravilhosa, mas eles falaram: “- A chance de você ganhar é mínima.”, e eu consegui e nem entrando no processo, tipo, foi na fase inicial do processo, por quê? Porque eles não queriam me contratar de volta e eu falei pra eles: “- Olha, desisto dessa cláusula aqui se vocês me pagarem tanto.”, aí eles falaram, “tá bom, a gente paga”. Porque a cláusula era eles me contratarem de volta e eles preferiram desistir da cláusula e me pagar, do que seguir o processo a diante, porque eles não queriam me contratar de volta. Eu também não queria, tá? Porque, tipo assim, eu só coloquei aquela porcaria porque na época eu não sabia como é que ia ser a minha vida, eu fiquei desempregada por meses, eu fiquei, tipo assim, numa situação desgraçada, sabe? Porque ser autista trans nesse mundo não é fácil, sabe? Ser uma autista travesti não é fácil nesse mundo, mas felizmente as coisas estão até que funcionando pra mim, sabe? Passo por um perrengue volta e meia, mas, sabe? Eu consigo me virar até, por quê? Porque hoje, como eu falei, eu sou professora, eu sou autônoma, né? E aí tipo assim, quais são os problemas hoje em dia, né? Os grandes problemas hoje é, por exemplo, eu não consigo fazer pessoas assinarem contrato comigo, por quê? Porque as pessoas veem: “- Ah, é trans!”. Ou talvez seja porque: “- Ah, é autista!”, “Ah não, é autista trans!”. E aí é tipo, é menos humano. E aí, tipo, não quer assinar o contrato, não quer assinar a droga do contrato. Aí me dão calote, sabe? Não paga o negócio, sabe? Me enrola pra pagar, sabe? Tipo, me enrola pra caralho pra pagar. Esse tipo de coisa, esse tipo de coisa de gente fodida, sabe, de gente privilegiada que vai e me explora, sabe? Então tipo assim, por quê? Porque tipo assim, parte é por conta dessa merda de sistema, dessa droga de sistema chamada capitalismo, que tipo assim, incentiva pessoas explorarem pessoas, sabe? Cara, o capitalismo é isso, o capitalismo, tipo assim, ele joga o osso pra dois cães famintos e aí, tipo assim, ele vê esses dois cães se matando por [indecifrável] e fica, tipo assim, batendo palma, sabe? Batendo palma não, melhor, ele joga esse osso pro cão faminto e enquanto faz isso aí, tipo assim, pra ver um monte de gente bater palma, vendo os dois cães se matar e aí, tipo, o capitalismo vem e cobra por isso e as pessoas pagam e aí, tipo assim, tem um monte de gente que tipo, não quer ver, que nojo, e aí tipo assim, tem uma galera que tá neutra e aí essa galera que tá neutra o quê que o capitalismo faz? Ou ele vai tacar lenha na fogueira, pra esse povo, tipo assim, ter nojo e aí vai cobrar esse pessoal, sabe? De ter nojo e aí, tipo assim, vai ganhar dinheiro em cima disso, do pessoal que tem nojo. Ou ele vai fazer uma outra coisa, que eu acho tipo, pior, fazer tipo assim, neutro ter vontade de querer ver os dois cães se matarem. Então tipo assim, por exemplo, você não quer comprar um ventilador, você não quer comprar, mas você vai ter uma ideia, você vai ser imbuído da ideia de querer comprar a droga de um ventilador por conta do capitalismo. O capitalismo, ele impõe a ideia de você comprar um ventilador, mesmo que você não queira. É isso o capitalismo, o capitalismo é uma bosta, sabe? Por quê? Sabe? Por conta de n fatores, sabe? Envolvendo, por exemplo, colonização, sabe? Colonização foi isso. Tipo, tem um monte de gente de boa, e aí tipo: “- Ah, vocês estão de boa? Tá bom, e se a gente te der isso aqui?”; “- Não, a gente não quer, a gente tá de boa.”; “- Vocês querem!”; “- Não, a gente não quer!”; “- Agora cês querem”; “Não, a gente não quer.”; “- Agora vocês querem. Ou vocês querem ou vocês morrem, e a gente vai fazer coisas piores com você.”. Que eu não vou nem falar aqui, porque tipo, eu não quero engatilhar ninguém. Então tipo assim, “- A gente vai fazer coisas piores.”; “- Tá bom, a gente quer.”. É isso. Colonização, sabe? Por conta de colonização, por conta de Cristianismo, sabe? Porque tipo assim, colonização tem a ver com cristianismo. E se você é cristão, desculpa tá? É, tipo assim, tudo bem você ter sua fé, mas a sua religião não colaborou muito nos últimos 2000 anos, sabe? Por conta de outras coisas, como por exemplo, uma droga chamada sociedade romana e sociedade grega, né? Sociedade falocêntrica, né? O machismo. Então assim são mais de 2000 anos de sociedade fodida, sabe? Ocidentais fodendo a vida de pessoas. De brancos fodendo a vida de pessoas, sabe? É isso.

 

[trilha]

 

Ricardo: bom, eu vou falar um pouco sobre a minha experiência, né? Com relação ao mercado de trabalho como uma pessoa autista, né? Assim, eu já digo de antemão que eu nunca trabalhei numa vaga PCD. Eu já participei de processos seletivos pra vagas PCDs, mas efetivamente trabalhar, eu numa trabalhei como vaga PCD e eu já vou explicar isso mais pra frente. Mas assim, a gente tem que começar a tratar desse tema complexo de mais, porque tem muita variável, pela questão inicial que é um dado que muita gente, voltado a neurodiversidade no mercado de trabalho, acaba falando, né? Que 85% das pessoas autistas não estão empregadas, né? E isso se dá por diversos fatores, vamos começar primeiro do início, obviamente, que é a parte do processo seletivo. O que a gente pensa sobre o processo seletivo? O processo seletivo é aquela parte do mercado de trabalho onde tem o famoso RS, né? Que é o recrutamento seleção, né? Que é um setor de RH, que visa a analisar currículo, entrevistar o candidato, enfim, fazer a ponte entre a empresa e o candidato que está querendo a vaga. Dentro desse processo seletivo, basicamente há duas ramificações: a primeira são as vagas voltadas pra público convencional, ou seja, qualquer um e o segundo pra o público PCD, né? As pessoas com deficiência, né? Na verdade. Vamos começar pela vaga convencional. Assim, a minha experiência, e também se baseando na experiência de outros autistas que, eu leio bastante sobre isso, sobre esses relatos, seja no LinkedIn, seja em qualquer outra mídia e rede social, de modo geral acontece o seguinte. Quando um autista vai tentar uma vaga de emprego convencional acontecem dois tipos de situações: a primeira é que quando a pessoa não se diz que é autista durante o processo seletivo isso meio que não faz diferença, porque, por exemplo, em fases do processo seletivo que envolvam entrevista, né? Principalmente entrevista presencial, né? Há uma certa desvantagem, na verdade uma desvantagem enorme por parte do autista, porque há um consenso, uma espécie de consenso, não sei de onde o RH tiraram isso, mas é esse pensamento de que, por exemplo, autista que não olha nos olhos durante uma fala, né? Numa entrevista, quer dizer que tá mentindo. Isso é basicamente falacioso, isso vai contra a questão da acessibilidade que eu já vou chegar nisso em outra parte da minha fala, mas que, enfim, acaba prejudicado o autista no ingresso no mercado de trabalho. Muitas vezes acontece do autista até – isso, no caso, reiterando que é o autista que não se diz autista no processo seletivo - o autista ele pode até passar pela fase de currículo, mas nas fases de entrevista e principalmente de dinâmicas de grupo normalmente ele não passa, justamente por essa questão comportamental que os RHS, né? Os recursos humanos acabam tendo, né? Como uma espécie de dogma, né? Eu acredito que essa é a melhor palavra. E o outro caso é quando o autista ele vai pra uma vaga convencional e se diz autista, as chances diminuem brutalmente, por quê? O que acontece? Quem não sabe muito sobre o mercado de trabalho tem que entender que o problema não é necessariamente só o processo seletivo feito pelo RH. Muitas vezes, isso parte também do gestor da vaga, porque normalmente quando tem a vaga de emprego é gestor da vaga que aciona RH, seja RH próprio da empresa que é departamento ou seja RH um terceirizado, né? Uma empresa focada em processo seletivo. Isso, normalmente, esse tipo de informação acaba, né? De que a pessoa é autista, acaba chegando no gestor. Como a gente vive numa sociedade estruturalmente capacitista, onde as pessoas têm a ideia de que corpos deficientes, né, as pessoas com deficiência são menos capazes de fazer qualquer tipo de atividades, e no mercado de trabalho isso não é diferente, acaba havendo esse capacitismo de chegar no gestor da vaga, né? Pra falar que a pessoa é autista e descartar, né? Por mais bobo que o motivo for, porque a gente tem que considerar que isso acontece com pessoas sem deficiência, mas com pessoa com deficiência isso é intensificado. Então nesse caso, há uma diminuição enorme na obtenção do emprego. Agora, nas vagas PCD, voltada a PCD, normalmente acontece uma coisa, que inclusive eu experienciei nas pouquíssimas vezes que eu tentei vaga PCD, que é a questão da infantilização. Não vou ficar citando exatamente meu caso, mas há essa infantilização, como se essa pessoa autista, por mais que ela tenha experiência no mercado de trabalho, por mais que ela tenha uma graduação, por mais que ela esteja fazendo uma especialização ou já tenha completado, há essa infantilização. Como eu falei, vem do capacitismo estrutural que trata o autista como aquele ser infantilizado, o famoso anjo azul, que autista quase sempre é do gênero masculino, enfim, e criança, né? Então, por isso que há essa infantilização. Então há esses dois casos. Agora adentrando mais nessa questão do mercado de trabalho pras pessoas autistas, há um outro ponto que vai depois do processo seletivo que é o próprio mercado de trabalho, o próprio ambiente. Há diversas barreiras e isso faz parte do estudo da deficiência, tem legislação que fala sobre isso, tanto a Convenção Internacional por Direito das Pessoas com Deficiência, quanto a LBI, que é a Lei Brasileira de Inclusão, que é a questão das barreiras. Existem diversas barreiras. Só citando algumas, que é a atitudinal, que é voltada às atitudes; as barreiras arquitetônicas, as barreiras sensoriais, enfim. No ambiente de trabalho, pegando até um pouco do gancho da Anne, por causa do capitalismo, né? Obviamente, que visa o lucro acima de tudo, isso faz com que na prática que queira até, até seja aceitável, né? Entre muitas aspas, uma pessoa com deficiência, no caso mais específico, uma pessoa autista fazer parte do ambiente de trabalho, porém, o dono da empresa muito dificilmente vai fazer qualquer tipo de atitude voltada a acessibilizar o ambiente. No caso do autista, no caso do autismo em si, por exemplo, a questão do abafador, né? Que quando tem algum autista com muita hipersensibilidade ao som, há esse artifício, né? Pra de certa forma acessibilizar e o autista não ter o famoso colapso, de é o meltdown. Também, há outra coisa que normalmente não se faz, que é até antes desse tipo de acessibilidade, que eu já citei agora a pouco, que é a barreira atitudinal. Toda barreira a ser superada, seja a barreira arquitetônica, sensorial ou qualquer outra, ela só vai poder ser ultrapassada a partir do momento que a barreira atitudinal é ultrapassada, porque não adianta a gente falar de acessibilidade no ambienta de trabalho, se não há atitudes, se não há um pensamento voltado à acessibilidade. Então é como se tentasse falar sobre algo, de certa forma avançado, sendo que o básico não foi nem discutido, né? Então tem essa questão que acaba influenciando muito autista, o que gera o que eu falei, né, dos 85% dos autistas não estarem no mercado de trabalho, primeiro porque, como eu falei é difícil do autista entrar no mercado de trabalho, justamente pelo capacitismo, né? Por tratar o autista como um ser infantilizado ou às vezes tratar o autista como um deficiente intelectual, que muita gente ainda comete esse erro, dentro ou fora do mercado de trabalho, muita gente comete esse erro de associar uma deficiência biopsicossocial, com uma deficiência intelectual. E mesmo assim, mesmo se classificar como deficiência intelectual é problemático, porque parte do pressuposto de que uma pessoa que tenha uma deficiência intelectual não seja capaz, o que é uma falácia enorme. E também, não quer acessibilizar o próprio ambiente. Então a gente parte desse problema enorme. Além disso que eu falei, quando um autista tá num mercado de trabalho, como não tem acessibilidade, ele não fica muito tempo, então aquele termo ‘turnover’, né? Que basicamente é a rotatividade dos funcionários é muito alta pra autistas, então, isso acaba influenciando diretamente na falta de empregabilidade e na não manutenção do autista dentro do ambiente de trabalho. Esse é um ponto. O outro ponto que eu considero até mais problemático é a questão da vaga PCD. Quando a gente fala de vaga PCD, a gente fala de uma legislação, né, que é a lei de cotas, né, que dependendo do número de funcionários numa empresa tem que contratar determinado número de pessoas com deficiência – e isto está em lei - isso meio que é burlado, porque na prática acontece que, por mais que a pessoa autista seja capacitada, tenha experiência e tudo mais, pra por exemplo, ocupar um cargo de analista, um cargo de gerência, normalmente esses autistas acabam ficando em cargos operacionais, né? Ou de auxiliar, enfim, o famoso chão de fábrica, né? O que gera, obviamente, um número muito grande de autistas muito capacitados ocupando cargos que não precisavam ser ocupados por aquelas pessoas. E isso é um problema que atinge os neurotípicos, atingem pessoas sem deficiências; mas com as pessoas com deficiência, isso se intensifica ainda mais, por quê? Como eu falei do capacitismo estrutural, de que trata as pessoas com deficiência como pessoas incapazes de fazer alguma coisa, de fazer uma função, né? Laboral. Essas pessoas são renegadas a trabalhos mais operacionais, né? Então esse é um problema, e muitas empresas fingem não ver, mas é um assunto que tem que ser cada vez mais debatido. E um outro problema, que eu considero até mais grave, a questão das empresas utilizarem a comunicação institucional, seja por endomarketing, seja por campanha em rede social, campanha na TV, enfim, qualquer mídia que for, voltada a falar sobre acessibilidade. Eu vou fazer uma comparação pra ficar de mais fácil entendimento. É como se falasse: empresa A fosse super diversa, porque tem pessoas pretas, tem pessoas LGBTQI+, tem mulheres, mulheres trans, enfim toda aquela coisa pra propaganda, isso pra publicidade. Só que na prática essas pessoas estão em cargos operacionais, né, como eu falei. Sofrem qualquer tipo de discriminação, sofrem assédio no trabalho e isso acontece com autista da mesma forma. Então a gente tem que parar de achar que empresa, por tá fazendo o mínimo do mínimo, que é uma campanha voltada a conscientização de autistas dentro do mercado de trabalho, se na prática, essas mesmas empresas fazem pouco ou nada voltado, né, na prática, obviamente, pro autista ter cada vez mais margem pra trabalhar nas empresas. Eu sei que isso é um problema que afeta as pessoas sem deficiência, porque, por exemplo, uma questão que perpassa todos os grupos sociais, que é, por exemplo, a falta de uma faixa salarial, a falta de um escopo da vaga, por exemplo, a falta de resposta no processo seletivo, a precarização do trabalho, né? Que pra quem não sabe eu sou do mercado da publicidade, né, eu vim desse mercado e praticamente tudo migrou pra pessoa jurídica. Então, isso a gente não pode deixar de perceber, que isso afeta todo mundo, né? Não só as pessoas com deficiência, mas a pessoas sem deficiência, porém como o autista faz parte desse grupo de pessoas com deficiência, há uma opressão maior em cima dessas pessoas, porque além de estar inserido com a questão de classe social, né? Que os autistas, principalmente os autistas mais pobres, têm dificuldade de conseguir emprego, não podem escolher emprego, tem que se submeter a condições de trabalho cada vez mais sucateadas, além disso o fato de ser autista acaba gerando todo esse tipo de opressão por ser um corpo fora da norma, né? Uma questão de estar fora do padrão, né, de ser uma pessoa que tem um comportamento diferente, por exemplo, possui stimms, né? Que são as estimulações. Então esse tipo de coisa, aliada a todos que eu falei anteriormente, acaba tornando a vida do autista dentro do mercado de trabalho - a gente podia até falar de outros campos - mas dentro do mercado de trabalho, acaba tornando a vida dessa pessoa cada vez mais insustentável. E como a Anne falou, isso tudo tem a haver com um sistema voltado ao enriquecimento, a acumulação de lucro acima de tudo. Porque associando, né, pra conectar, a questão da propaganda é justamente pra fazer com que mais pessoas acreditem que aquela empresa é consciente, mas isso é uma consciência apenas na casca, né? Apenas da boca pra fora, porque o capitalismo não vai querer, pelo menos a princípio, querer que essas pessoas adentrem no mercado de trabalho. Então é algo que a gente tem que refletir muito e tentar evitar ao máximo que o mercado de trabalho fique cooptando autistas como se fossem meras máquinas, meros autômatos, para apenas gerar lucro, né, e não ser minimamente sustentável, né? Apesar de que o próprio capitalismo em si é um sistema insustentável por si só.

 

[trilha]

 

Annebelle: por que neurodivergente tem dificuldade em relação ao mercado de trabalho? É porque, tipo assim, é batata, sabe? Tipo assim, pode ser autista, pode ser borderline, pode ser bipolar, qualquer pessoa PCD, qualquer pessoa neurodivergente, por que essas pessoas têm tanta dificuldade? Porque é tipo assim, vamos explorar um pouco mais, né? Vamos pegar outros tipos de pessoas. Porque, afinal de contas não é só essas pessoas, né, pessoas sem deficiência também tem dificuldades. Mas como assim, Anne? Você falou agora pouco que pessoas sem deficiência não têm. Não. Pessoas sem deficiência tem, sabe? Vamos pegar pessoas que são minorias étnicas, né? Como por exemplo, qual é a carne mais barata do mercado? A carne mais barata do mercado, eu sou uma pessoa branca, tá? Só pra constar, mas a carne mais barata do mercado é a carne preta. Outra carne que assim, também é baratíssima, também é fresca é a carne asiática; a outra que tipo assim, é tão barata, tão barata que ninguém fala é a indígena. Essa é a grande questão. Ninguém fala de minorias étnica, sabe, porque tipo assim, ninguém se importa. A cigana também, cara ninguém se importa com cigano, ninguém se importa com cigano, sabe? Porque tipo, essas minorias o capitalismo quer que morra, sabe? Afinal das contas em relação ao mercado de trabalho não vir ser apenas autista que vai se ferrar, sabe? Vai ser tipo assim, todo mundo que não seja naquele molde, ali. O autista se ferra com as coisas que o Ricardo citou, eu não quis adentrar nesse aspecto porque tipo assim, as minhas lutas são maiores do que apenas nesse aspecto, porque assim. Eu falo na parte do autismo, mas eu não me atenho apenas no autismo em si, sabe? Porque quando a gente fala sobre neurodiversidade, neurodiversidade não é apensa sobre ser autista, né? Neurodiversidade é muito além em relação a isso, e aí como eu não posso abordar borderline e dislexia, porque senão, a gente foge do tema, daí eu resolvi abordar mais a questão do mercado de trabalho. A questão do mercado de trabalho mesmo, por exemplo, o que eu passei não teve inclusão nenhuma, tipo foi zero, zero, zero inclusão, não me ofereceram fone de proteção de ouvido, não me ofereceram a droga de um ambiente um pouquinho mais escuro, sabe? Tipo assim, não fizeram nada, nada, nada, neca, neca, neca, nada, nada pra tentar me incluir, nada. O máximo que eles fizeram pra tentar me incluir foi, tipo assim: “- Ah, pandemia? Manda pra casa.”. Tipo, foi isso, sabe? Pra minha sorte, tipo assim, eu tenho um computador potente, sabe? E na época meu computador era mais que adequado, e tipo assim, e aí na época eu falei pra empresa: “- Olha só, meu Windows é pirata”; e eles falaram: “- Ah, não tem problema.”, e aí foi isso, foi isso, sabe? É tipo, sabe? Uma empresa, uma multinacional gigantesca absurda, que se ela cair metade do capitalismo cai e eu não estou brincando, não é sarcasmo, não é hipérbole, eu não tô brincando. Se essa empresa cai, metade do capitalismo cai junto. Estava aprovando, estava autorizando eu usar um Windows pirata, então assim, por quê? Porque eles não estavam interessados em inclusão, sabe? Eles não queriam nem me dar um Windows original. Então é isso, é isso, esse é o nível em relação a inclusão. É isso, é isso, sabe? Não tive nada, sabe? Zero de inclusão. E se tivesse continuado a trabalhar lá provavelmente o que ia acontecer é: eu ia bater foto, eu ia tirar foto na semana de inclusão de autismo, eu ia ser o animal de estimação, sabe? Porque é isso que o autista é no final das contas, no final do dia autista é animal de estimação na semana de inclusão, autista só é lembrado nessa semana, só é lembrado nessa maldita dessa semana, sabe? No dia do autista na semana da inclusão, no mês do autista e depois é esquecido, tipo assim. Depois é: “- Cala sua boca, maldita, volta pra onde você veio, cala sua boca, você não tem espaço aqui!”. Tipo assim, autista quando compõe uma música, quando compõe alguma coisa: “- Ai meu Deus, silêncio, que o autista tá fazendo uma coisa maravilhosa!”, mas quando o autista quer lutar pelos seus direitos é “- Cala sua boca! Você não tem o que fazer?”. Quando é uma mulher autista falando: “- Não, não existe mulher autista. Uma autista mulher? Nunca ouvi falar, nunca ouvi falar.”. Se é uma autista mulher preta, eu não vou nem falar os termos, mas é tipo assim: “- Volta para aquele lugar!”, é isso, sabe? Por quê? Porque aí é sobre racismo, então, não pode, sabe? Não pode. Se é uma autista mulher indígena? Não, pode, não pode. Se é uma autista mulher trans? Eu não vou nem falar os termos que eu já ouvi, sabe, mas também não existe, não pode, não pode, sabe? Por quê? Porque o autista só pode ser se for autista, tem que ser aquela caixinha perfeita, né? Então tem que ser autista, homem, branco, cis, de classe média ou classe média alta, fora isso? Não pode. Tem que ser um autista da locadora vermelha, sabe? Aquele é autista. Fora isso? Não existe.

 

Ricardo: detalhe, tem que ser autista e trabalhar no mercado da TI. Que fique bem lembrado.

 

Annebelle: olha, preferencialmente, tipo assim, mas assim se for trabalhar em outros mercados é um diferencial, sabe?

 

Ricardo: olha.

 

Annebelle: dependendo do mercado que tu trabalha, é um diferencial, sabe?

 

Ricardo: olha, eu nunca, eu nunca consegui, depois que eu coloquei que eu sou autista na descrição do meu perfil do LinkedIn e ter colocado PCD no meu título, né? No meu perfil, depois disso eu nunca mais fui contratado. No máximo veio um outro de RH perguntando se podia fazer entrevista, já cheguei a fazer entrevista, mas não foi pra frente.

 

Annebelle: mas qual que é sua profissão mesmo? Tipo assim.

 

Ricardo: eu sou publicitário e trabalho em algumas frentes dentro do marketing digital.

 

Annebelle: então, mas essa é a questão. Você é publicitário, publicitário geralmente é encarado, dependendo da situação, ou como pobre, sabe? Ou como, tipo assim, ah, tipo é meio que whatever, sabe? Tipo assim, depende do que for, por exemplo. Você é formado em que mesmo?

 

Ricardo: Comunicação Social, e tenho uma pós em Mídias e Redes Sociais.

 

Annebelle: Comunicação Social. Então, sabe? Tipo assim, é que depende da área, porque por exemplo, eu conheço um autista que ele é formado em Sociologia: “- Sociologia?! Ah não bem, você é pobre!”, sabe? E não. Ó, por exemplo, existe uma certa pessoa por aí que é formada em Medicina, daí: “- Opa, estamos interessados”. Daí, né? É interessante.

 

Ricardo: é conveniente. É conveniente pra narrativa.

 

Annebelle: depende do que for, depende do que é, sabe? Então assim, Publicidade? Quem quer saber de um autista publicitário, sabe?

 

Ricardo: então, é isso que eu tô falando. Autista, se tem um pensamento, desculpa essa palavra, mas um pensamento imbecil de que autista é bom em lógica, e por isso, o autista tem que ser do mercado da tecnologia ou de exatas.

 

Annebelle: então, mas essa questão, tipo assim, não é só exatas, por exemplo assim, se ele é artista daí, né? “- Meu Deus do céu é um gênio, olha que lindo”, sabe? E tipo assim, existe uma correlação muito grande entre autismo e racismo, existe uma correlação muito forte, uma correlação gigantesca, sabe? É um negócio tão gritante, é um negócio tão absurdo. Eu queria muito que, tipo, tivesse alguém preto pra falar isso, porque tipo assim, eu não quero entrar, mas é uma correlação tão absurda, tão gritante, que tipo, é sério. Eu posso dizer, em relação ao autismo e em relação a falta de direitos em relação ao autismo e racismo no sentido de autismo e transfobia, porque tipo assim, o que nós travestis sofremos, infelizmente o que a gente passa, ressalvada as devidas proporções tá? Isso é basicamente a história se repetindo, do que pessoas pretas passaram na questão dos anos 60, 70, sabe? Por conta de tipo assim: “- Ah, aqui pode entrar pessoas com cor e aqui não pode entrar”, ressalvando as devidas proporções. Por quê? Porque tipo assim, eu não posso colocar a mesma situação porque existe 500 anos de escravidão, sabe? Por isso eu falo, ressalvando as devidas proporções. Porque tipo assim, a gente por 500 anos, a gente nem existiu! Sabe, a gente existia, mas ninguém nem pensava na gente, essa questão. A gente se absteve do mundo.

 

Ricardo: PCD também.

 

Annebelle: oi?

 

Ricardo: PCD também.

 

Annebelle: então, é essa questão. Pessoas trans sempre existiram no mundo, travestis sempre existiram e tem documentos históricos em relação a isso. O filho, o filho não, o irmão do rei Sol da França, ele era tipo assim, falaram que era drag, mas não, ele era travesti, tá? Ainda assim, sendo tipo, ela sendo uma travesti, porque tipo, ela era tratada com pronomes masculinos, sabe? Mas era uma travesti. E ainda assim, sabe, 500 anos de história a gente sofrendo isso, 500 anos de história. E aí tipo, pra mais tá? Pra mais, porque tipo. Foda, é foda, sabe? Porque tipo assim, quando a gente fala de pessoas não-binárias, pessoas não-binárias existem desde que o mundo é mundo, pessoas trans, sabe? Existem desde que o mundo é mundo, mas... PCDs também, mas é só ignorado mais por conta de toda essa questão de cristianismo, colonização, capitalismo. É um lixo, é um lixo de mundo, é um lixo de Universo que a gente existe. E enfim, sabe, não tem muito o que se fazer, é só, sabe? Depressão e terapia. [risada de Ricardo] álcool. É isso, é isso.

 

Ricardo: você falou sobre essa questão da relação entre a comunidade preta, de pessoas pretas, e a comunidade LGBTQI+, me lembrou na hora de eugenia. Porque eugenia passa por raça, gênero e deficiência. A eugenia afetou todo mundo, todo mundo. Em algum grau, assim, o mundo do mercado de trabalho, pra uma coisa mais ampla, assim o pensamento capacitista está diretamente atrelado ao pensamento eugênico. Pra quem não sabe, a eugenia inicialmente era um campo de estudo iniciado, se não me falha a memória, no final do século 19, porém a eugenia acabou se transformando numa espécie de ideologia que depois virou política de estado, que assim, teve a Alemanha na segunda guerra mundial, né? A Alemanha nazista.

 

Annebelle: uma coisinha só. A eugenia é mais antiga que isso.

 

Ricardo: mas enfim. Essa política de estado se fala muito da questão da Alemanha nazista, mas isso meio que era corroborado em algum grau por toda Europa. Então explicando isso, no mercado de trabalho tem muito esse pensamento eugênico que é voltado pra normalização dos corpos autistas. Claro que não diretamente está associado ao mercado de trabalho, porém como é uma ideologia que acaba se transformando no capacitismo estrutural e tudo mais, fica claro que as empresas, né, inseridas, né, no sistema capitalista, né - que eu já vou chegar na Alemanha, inclusive - elas querem que as pessoas autista, né, as pessoas com deficiência como um todo se normalizem, e quando se fala normalizar e normalizar corporalmente, serem pessoas sem deficiência e que basicamente sejam produtivas pra o fomento do trabalho, né? Enfim, da fabricação do que a gente chama de mais valia no marxismo, por exemplo. E assim, indo na questão lá da Alemanha nazista na segunda guerra, como a Anne falou que é o ápice do capitalismo, quando a gente fala de normalização de corpos a gente pode associar perfeitamente esse pensamento de normalização de corpos que na Alemanha chega ao extremo de achar que os corpos deficientes não servem nem para o trabalho, então eles servem justamente para a morte, né? Não servem pra nada. E de uma forma mais branda, dentro do contexto brasileiro, que dentro do contexto brasileiro estamos vivendo um período bastante neoliberal, com um mundo envolto no sistema capitalista, então mesmo que seja de uma forma branda se tente normalizar os corpos, né? Então esse é um dos motivos, há outros, mas não dá pra falar aqui agora, porque se não ia ficar um catatau, mas o neoliberalismo, na verdade o liberalismo como um todo, mas eu tô sendo até bonzinho, mas o neoliberalismo está intrinsecamente ligado com o fascismo e também o nazismo, já que o nazismo tem a carga de normalização de corpos, mais além da normalização, da eliminação dos corpos, né? Já que tem a carga eugênica embutida. Então só pra complementar isso.

 

Annebelle: mas o liberalismo é fascista mesmo, sabe? Tipo assim, não é o neoliberalismo não, é o liberalismo, é o capitalismo, o capitalismo é fascista. E isso, sabe? Tipo assim, é ideia de democracia. Não! A democracia e o capitalismo não andam juntos. É uma mentira que contaram pra vocês, é isso, tá bom? Sabe, tipo, desculpa. Mas é a ideia de que o Comunismo é uma ditadura e que o capitalismo é uma democracia, talvez é uma das mentiras que mais propagaram pra vocês, porque assim, capitalismo não anda junto com democracia.

 

[trilha]

 

Annebelle: o que eu espero da minha profissão, sendo uma autista trans... Eu espero que, tipo assim, o bom de eu entender isso, como funciona o capitalismo, eu entendo como funciona os mecanismos dele. Ou seja, eu driblo essa merda. Tipo assim, eu realmente, eu driblo essa bosta. Então assim, uma coisa fantástica em relação a isso é: eu não tenho meu nome sujo no SPC Serasa! Sério. Eu realmente não tenho, eu sei, você deve tá agora em choque. Porque, tipo assim: “- Como assim você não tem nome sujo no SPC/Serasa?”, eu não tenho.

 

Ricardo: ué, por que eu teria... eu ficaria surpreso?

 

Annebelle: porque todo mundo tem o nome sujo no SPC/Serasa. Todo mundo tem. E tipo eu consegui essa proeza, eu não tenho. Por quê? Porque eu sei como funciona os mecanismos do capitalismo. E tipo assim, eu estudo pra caralho em relação como funciona o capitalismo pra literalmente driblar essa merda, sobreviver a esta merda, sabe? Porque tipo assim, eu sou anarquista, eu sou de esquerda e aí por eu ser assim, sou uma anarquista mutualista, só pra constar caso alguém tenha dúvida. E aí, eu espero assim, eu conseguir continuar sobrevivendo, sabendo os mecanismos. Porque é difícil, assim, eu sou autônoma, sabe. É realmente um inferno, eu dependo... é a minha profissão, né, eu sou homeoffice até hoje, sabe? Eu consegui me reinventar, eu me criei do zero, sabe? Tipo, eu realmente me reinventei, sabe? E aí tipo, agora eu tô chegando numa situação, tipo assim, eu tô chegando num ápice meu em relação a ser professora, sabe? Então, por exemplo, as pessoas pensam que, por causa do Twitter, né, professora de canto, homeoffice, online - as pessoas pensam em mim. Professora de alemão online, as pessoas pensam em mim; professora de teoria musical online, tá bom, aí eles pensam ainda na Naiara Rita, mas por enquanto, sabe? Porque daqui a pouco eles vão começar a pensar em mim também. Professora de violão online, mas daí tem muita gente, porque tipo, eu não sou única, sabe? Mas tipo, professora de canto online? A primeira pessoa que vem na cabeça, sou eu. E tipo assim, eu me reinvento cada dia nesse aspecto, sabe, e nem divulgo muita na parte de produção musical e tal mais, porque tipo, é muito exaustivo, é uma área muito exaustiva, mas sei lá se eu tiver que voltar pra essa área, volto, sabe? Se tiver que voltar pra produção musical volto, porque tipo é isso, sabe? É como eu falei reinvenção. E fora isso, né? O que eu espero pra outros autista dessa área é o que eu espero pra mim, eu sei que é uma coisa meio difícil de se falar, mas é terapia, depressão e álcool. Desculpa gente, mas eu preciso ser sincera com vocês, porque capitalismo e assim, por mais que a gente tenha uma notícia otimista em relação a pandemia, essa pandemia acabar, graças ao governo Bolsonaro ter destruído uma grande parcela em relação ao pantanal e a Amazônia, o que acontece? Animais vão para as cidades, por conta de animais irem pra essas cidades foi por conta disso que aconteceu o coronavírus. Ou seja, a gente vai ser uma fábrica de pandemias. Então vai vir novas pandemias, sabe? Então eu sinto muito em dizer pra vocês, mas essa foi só a primeira de muitas. Então, depressão, terapia e álcool.

 

Ricardo: certo, o meu pensamento pro futuro, mais especificamente pra minha profissão, não tá muito diferente da Anne, porque assim, atualmente eu não trabalho fixo no mercado de trabalho que eu atuo, né? Publicidade, enfim, marketing digital e coisas relacionada, no máximo que eu faço é pegar uns trabalhos avulsos né, o famoso freela. E eu não me sinto à vontade de forma nenhuma, de forma alguma, a voltar ao mercado de trabalho da publicidade, da comunicação, comunicação digital como um todo. Atualmente, né, como eu falei no início, eu faço uma produção de conteúdo no YouTube voltada ao autismo e uns dos meus objetivos, né? Entre vários que eu tenho com o canal, é monetizar isso, pra chegar um ponto de eu não ter eu depender de ir no mercado de trabalho formal que eu sei que eu vou ter que me agredir, me agredir psicologicamente pra tentar parecer o mais neurotípico possível, né, que é o famoso mascaramento, né? E, além disso, têm elementos que perpassam todos os campos, não só o autismo. Que é a precarização do trabalho, todo mundo tá virando PJ, cada vez mais tem um acúmulo de função que já existia no mercado da comunicação e tá cada vez mais intenso, e isso, enfim, tá cada vez mais exigindo muito de um profissional da comunicação e cada vez mais se paga pouco, e ainda se paga mais precarizado, né? Então eu não quero, assim, pelo menos é o meu desejo, não voltar nessas condições no mercado de trabalho, né? A minha, o meu objetivo é monetizar com o trabalho que eu já faço, seja com a produção de conteúdo que eu faço nas redes sociais, principalmente YouTube, ou mesmo ganhar, sobreviver, né? No quesito financeiro com textos, né? Porque eu fiquei uns bons anos trabalhando com texto. E também seguir a carreira acadêmica como professor, né? Então o mercado publicitário por mais que o mercado da docência não seja mil maravilhas, mas não adianta eu querer voltar pro mercado que eu iniciei, porque seria reviver dificuldades que eu sei que eu não vou conseguir ultrapassar. Porque, por mais que eu seja um autista que tenha um pensamento crítico treinado, né, porque todo mundo tem pensamento crítico, mas eu acabo desenvolvendo isso praticamente todo dia. Tenho experiência no mercado, tenho graduação, pós, enfim. Eu sei que eu sozinho, eu não vou conseguir mudar uma estrutura, seja a estrutura do pensamento de uma empresa, seja a estrutura do mercado de trabalho que está inserida no sistema capitalista, infelizmente. Então eu acredito que no meu caso, seja isso.

 

[trilha]

[vinheta]

 

Olga Aureliano: O roteiro, gravação e edição é de Ricardo Augusto e Annebelle Arco-Íris, cocriadores deste episódio; a finalização e vinheta é de Rodrigo Policarpo, e a transcrição é de Beatriz Simões, com revisão de Bruna Teixeira e a tradução para o inglês de Deise Mônica. O Ateliê Ambrosina é a ONG artivista de Maceió-Alagoas que está à frente da realização do Retratos Defiças, um projeto financiado pela Universidade Western do Canadá. Atua na produção local junto comigo, Vanessa Malta e a consultora Bruna Teixeira, e como pesquisadoras, as antropólogas Nádia Meinerz e Pamela Block. Siga “Retratos Defiças” no Spotify e no Instagram para ficarem sempre atualizadas das cocriações que vêm acontecendo pelo Brasil. Até a próxima segunda!

 

[vinheta]

Card cinza claro, quadrado, do podcast Retratos do Brasil com Deficiência. No centro de um triângulo em diferentes tons de lilás, a cabeça branca da medusa, de perfil esquerdo. O triângulo tem pontas arredondadas e está na horizontal, voltado para a direita. A medusa é uma figura feminina, da mitologia grega, com serpentes no lugar do cabelo. O rosto dela é branco e as serpentes são vazadas, com contorno branco, fino e parecem se mover em todas as direções. Na parte inferior, o nome do podcast. A frase Com deficiência está em negrito e Podcast, em negrito, maiúsculo.

Trilhas deste episódio

 

Link: https://youtu.be/x9C6JJ4P6eo

Music without copyright - Attribution not required.
You're free to use this song and monetize your video.
Artist: Cheel | Track: Kurt
Download MP3 - https://hypeddit.com/tms0ww
Alternative & Punk | Dark
Cheel playlist: https://www.youtube.com/playlist?list=PLrwYF1Q780z9SUInYfpyoF2Blkz18vZL3
Alternative & Punk music playlist: https://www.youtube.com/playlist?list=PLrwYF1Q780z-49ToWCTu3EuEIJ-wqPv9E
Dark music playlist: https://www.youtube.com/playlist?list=PLrwYF1Q780z9PsRJNlgiLT9IOny9Ru2r8

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Link: https://youtu.be/fS91TFhG8Bk

Chris Zabriskie - The Life and Death of a Certain K. Zabriskie, Patriarch

Free Download :-
https://www.youtube.com/audiolibrary_download?vid=63272c11c5681ace

Artist : Chris Zabriskie
Title : The Life and Death of a Certain K. Zabriskie, Patriarch 
Genre : Ambient
Mood : Calm
Audio Library

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Link: https://youtu.be/2WRVyX2_myA

Música: Chrono Cross Rap Beat : -Dreams Of The Shore Near Another World-[XeroN.Prod]
Uso livre autorizado pelo autor da obra no vídeo

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Música: Tekken 3 - Xiaoyu and Jin Hip Hop Remix
Link: https://youtu.be/I-zpvJWg3Q4

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Link: https://youtu.be/9R6IdEQublk

FREE DOWNLOAD at OC ReMix: https://ocremix.org/remix/OCR03966
ReMixer: 744 (https://ocremix.org/artist/15770)
https://ocremix.org/info/Content_Policy - FREELY use OC ReMixes in videos/streams!

• Game: Donkey Kong Country (Nintendo, 1994, SNES)
• ReMixer(s): 744
• Composer(s): David Wise, Eveline Novakovic, Robin Beanland
• Song(s): "Aquatic Ambiance", "Stickerbush Symphony (Bramble Blast)"
• Posted: 2019-09-04, evaluated by the judges

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Link: https://youtu.be/exdUk2V0eN4

FREE DOWNLOAD at OC ReMix: https://ocremix.org/remix/OCR03985
ReMixer: Eliott Tordo (https://ocremix.org/artist/17062)
https://ocremix.org/info/Content_Policy - FREELY use OC ReMixes in videos/streams!

• Game: Golden Sun (Nintendo, 2001, GBA)
• ReMixer(s): Eliott Tordo
• Composer(s): Motoi Sakuraba
• Song(s): "The Elemental Stars"
• Posted: 2019-10-07, evaluated by the judges