Nesta primeira fotografia, a cabeça de Caroline está dentro de uma casa de madeira marrom, apoiada nos ombros. A casa tem telhado marrom, de duas quedas, e uma pequena porta oval ladeada por janelas quadradas. Caroline usa uma roupa preta e segura pelo lado direito do pescoço, a cabeça de um manequim feminino, de cabeça para baixo, à frente do corpo. A manequim é branca, com cabelo armado, liso, marrom, na altura da nuca, olhos azuis, nariz fino e lábios vermelhos. Um ramo de flores mortas, em tom marrom claro, emerge do pescoço da manequim. Caroline está entre os corredores de um labirinto formado por paredes de tijolos vermelhos, manchados de preto, devido à ação do tempo. As paredes se estendem, em perspectiva crescente, da borda inferior da imagem até a parte superior, onde esbarram em uma cerca desfocada, à frente de arbustos verdes, também desfocados.
Nesta segunda fotografia, Caroline está de perfil esquerdo, entre sombras e frechas de sol que passam entre as muitas árvores espalhadas ao redor e iluminam o chão de terra. Ela é branca, magra, com cabelo castanho, liso, na altura dos ombros, rosto e nariz finos. Caroline usa collant preto, de mangas compridas, uma saia branca, de tecido semitransparente, com um cinto preto, fino e sapatilhas bege, de ballet. São sapatilhas acolchoadas, feitas de cetim. Com o corpo ereto, na ponta do pé direito e a perna esquerda estendida para o lado, ela contempla a cabeça da manequim que segura no alto, com o ramo de flores que emerge do pescoço.
Nesta terceira fotografia, Caroline está à direita, em pé, vista da cintura para cima, por trás do muro de tijolos vermelhos que forma o labirinto. Ela está com parte do rosto encoberto pela parte inferior, vasada, da casa de madeira que segura sobre a cabeça. Caroline usa blusa azul marinho, de mangas compridas.
Sob pó e horas contadas

"Te pronuncio, mesmo que sejas silêncio! Falo de mim: afirmo. Entendi que não é horizonte, nem tempo: é essa desembocadura para dentro, urgente, que já tinha esquecido de desdobrar, debruçada sobre coisas outras, ainda inomináveis. Agora, quero esgarçar suspiros, e convertê-los em canções para embalar o movimento do vento. Dançarei desalinhada e tropeçarei na palavra vomitada, em verborragia incontida, guardada sem meu próprio consentimento. Pululam o pó e as horas contadas, desbravando sonhos em ritmo sincopado. Dizem um pouco do que restou das frases não ditas, ainda. Era para refletir tua alma, contudo, mas cravei os dentes e impedi o grito. Já me conheces, certamente: eu sou feita de engasgos."

 

Ana Cândida Carvalho

Cocriação: Ana Cândida e Caroline Gouveia

Técnica: Fotografia

Ano: 2021

Teresina - Piauí - Brasil

Ana Cândida é mulher autista, teresinense, de 38 anos, formada em Psicologia, integrante da Associação Brasileira para a Ação por Direitos das Pessoas Autistas – Abraça, fotógrafa artística e escritora. Faz parte do Coletivo Voragem, composto por mulheres artistas do Piauí. É fotógrafa da Geleia Total, portal cultural do Piauí.

Caroline Gouveia é mulher, não-defiça, que começa a estudar ballet aos 9 anos de idade e atualmente, integra o Ballet Jovem do Piauí e Projete, o qual foi e está sendo muito importante para manutenção da sua técnica como bailarina e artista. Desde 2017, atua também como modelo fotográfica em parceria com a fotógrafa Ana Cândida.