Image by Rianne Zuur
Pod!sso

#4

episódio

Título: Pod!sso

Data de publicação: 10/1/2022

Cocriação: Paulo Henrique e Saulo Vinícius

Cidade/UF: Presidente Prudente/SP

[vinheta]

 

Olga Aureliano: Estamos por aqui, juntas mais uma vez com o podcast Retratos Defiças. Eu sou Olga Aureliano e faço parte da equipe do Ateliê Ambrosina, a ONG alagoana que realiza este canal, junto com a Universidade Western do Canadá. No episódio passado, estivemos com Pablo de Assis e Giovana Nicolau de Curitiba/Paraná, discutindo os problemas da relação entre a psicologia clínica e o autismo, junto com relatos pessoais de vida dos cocriadores, ambos autistas. Com o episódio Pod!sso de hoje, Paulo Henrique (um homem com cegueira), conversa com Saulo Vinícius sobre a forma como a deficiência visual é atravessada por diversas questões como afetividade, tecnologia e acessibilidade. Seguimos junto com eles.

[vinheta]

 

Paulo: artigo 2º - Considera-se pessoa com deficiência aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial; o qual em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas.

 

Saulo: trecho da Lei Brasileira de Inclusão.

 

[bip]

 

Saulo: oi gente.

 

Paulo: olá pessoal, bom dia, tudo bom?

 

Saulo: começa agora o Pod!sso [lê-se pode isso], o nosso episódio contemplado pelo edital Retratos Defiças - Retratos do Brasil com Deficiência.

 

[bip]

 

Paulo: bom é... eu me chamo Paulo Henrique, eu sou de Presidente Prudente, eu sou um homem de pele clara, cabelos castanhos compridos amarrado de um coque baixo, meu olho direito é menor do que o esquerdo, nariz um pouco batatinha, boca grande, uso barba. Eu uso uma camiseta verde e um short xadrez de marrom e bege, um tênis e tô sentado aqui na mesa, junto ao Saulo, em um dos cômodos da casa dele. E aí Saulo, fala um pouquinho de você.

 

Saulo: é isso Paulo. Eu sou o Saulo também sou daqui de Presidente Prudente, sou um homem de pele escura, nariz grande, olhos grandes pretos, tenho o cabelo descolorido loirinho atualmente, tenho os lábios grandes também e um pouco de pelo na cara que ainda não dá para chamar de barba. E eu acho que é isso. E o que você faz aqui em Prudente, Paulo? Conta pro pessoal.

 

Paulo: então, é... Eu sou formado em Pedagogia, atualmente curso Geografia e desenvolvo outros trabalhos, né? Eu também trabalho no projeto UNO da UFRJ, né, UNO - Um Novo Olhar, como consultor em audiodescrição, faço consultoria acessibilidade e também desenvolvo uma pesquisa no LAG que é o Laboratório de Arqueologia Guarani do Mar, que é o Museu de Arqueologia Regional de Presidente Prudente. E você, Saulo?

 

Saulo: bom, eu também sou estudante aqui da FCT/UNESP de Presidente Prudente, sou estudante de Geografia. Faço parte também do Coletivo Afronte, e além disso eu também tô envolvido com os movimentos culturais daqui de Presidente Prudente, mais voltado para as questões da poesia de rua e do rap.  Podemos começar então, a nossa conversa?

 

Paulo: bora lá!

 

Saulo: e pra começar, pessoal, a gente separou uma notícia da CNN Brasil do dia 26 de agosto de 2021 que traz os seguintes dados pra gente. Segundo o levantamento do IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 8,4% da população brasileira, acima de 2 anos, tem algum tipo de deficiência. Isso representa 17,3 milhões de pessoas. Entre essa população com algum tipo de deficiência, 10,5 milhões são mulheres e 6,7 milhões são homens. Em relação ao local onde essas pessoas vivem, Paulinho, 9,7% delas estão em áreas rurais, enquanto 8,2% delas, em zonas urbanas. E aí também tem a questão do estudo. Através desse levantamento do IBGE é indicado que quase 68% da população com deficiência não tem instrução ou possui o ensino fundamental incompleto. E para finalizar, ainda traz alguns detalhes relacionados a etnia pra gente tá observando: 9,7% delas eram pretas; 8,5 pardas e 8% brancas. E aí é aquela pergunta, Paulinho, onde estão essas pessoas?

 

Paulo: então né, a gente observando esses dados percebe-se que a maioria é mulher, que a maioria também são pessoas de pele escura e cadê essa galera, Saulo? Onde estão essas pessoas?

 

Saulo: bom, Paulinho, acho que para começar respondendo essa pergunta de onde estão essas pessoas, seria massa você contar pra gente como que através das leis, das organizações, se dá a questão da inclusão e da acessibilidade.

 

Paulo: então, gente, a relação sociedade e deficiência... é legal a gente trazer uma contextualização, uma breve contextualização histórica, em quatro partes. A primeira parte na idade antiga era chamada de exclusão, porque as pessoas eram deixadas pra morrer, esquecidas ou jogadas, abandonadas, né? A mercê da própria sorte, sem condição nenhuma. Pra tornar invisível essas pessoas né? Para elas não serem percebidas. E depois com o avançar do tempo veio a segregação, ou seja, essas pessoas elas foram percebidas, só que ainda estavam à margem da sociedade, não eram aceitas. A partir de 1920, 1900 pra frente, até 1930, a gente tem a parte da integração, né? E a integração é esse momento em que as pessoas com deficiência – aspas, “são aceitas na sociedade”, no entanto, é como se elas fossem invisíveis ou invisibilizadas, porque não são escutadas, não tem a própria voz... é como se fossem marionetes. E de 1930, 1940 até 1980, e atualmente, nós temos o processo de inclusão, porque, eu acredito que não há um processo total de inclusão e também há situações e momentos, em que não há inclusão. E a inclusão - essa parte da história, esse momento histórico que as pessoas têm vez, tem vidas, não são invisibilizadas. E a partir disso, em 2007 teve a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência em Nova Iorque. E aí nessa convenção considerou-se um deslocamento. Qual deslocamento? Da deficiência que era colocada, inserida no sujeito, deslocou-se - desloca-se - para o ambiente. Por isso, pessoa com deficiência e não deficiente, porque esse deficiente é como se fosse a totalidade do sujeito só fosse a deficiência, né? Como se a única coisa que pudesse ser percebida naquele indivíduo fosse o que lhe falta e nós oferecemos tantas outras potencialidades.

 

Saulo:  Paulinho, você pode dar um exemplo do que ser esse deslocamento?

 

Paulo: ah, um exemplo muito bacana é, se a gente pensar numa pessoa em cadeira de rodas, porque se ela chega em uma escola, em um anfiteatro, e não há rampa, né? Onde tá a deficiência? Porque a pessoa tá ali, ela tá presente, ela tá pensando, comunicando, tá socializando e o ambiente não está adequado, o ambiente não proporciona condições para que, de uma forma plena, essa pessoa possa usufruir daquele espaço. Eu acredito que esse seja um exemplo muito contrastante, muito sólido ou melhor, palpável que a gente percebe diariamente. A partir da convenção 2007, nós chegamos em 2009, o ano no qual o Congresso Nacional do Brasil passa a ter a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência como emenda constitucional, né? Então tem força de lei. É como se fosse – é - parte da nossa Constituição. E como tal, precisa ser respeitada. Em 2015, isso é consolidado e estruturado no Estatuto da Pessoa com Deficiência ou ainda a LBI - Lei Brasileira de Inclusão. [início da trilha ao fundo] E a lei traz algumas considerações sobre o que é uma pessoa com deficiência e quais barreiras impedem o pleno acesso dessas pessoas em pé de igualdade com as demais. E é sobre isso que a gente vai falar um pouco agora.

 

[trilha: beat original por Saulo Vinícius - @alajerecords]

 

Saulo: é isso gente, então seguindo agora pra nossa segunda parte do podcast depois de feita essa contextualização perfeita do Paulinho, a gente vai começar a falar sobre essas barreiras que são apresentadas na Lei Brasileira de Inclusão, de que forma elas se tornam concretas no dia a dia de uma pessoa deficiência. E a primeira barreira que a gente vai trocar uma ideia hoje é a barreira física, e aí, como eu e Paulinho compartilhamos o mesmo espaço que é o espaço da Universidade, eu queria que a gente começasse por lá. Pode ser amigo? De que forma, as barreiras se tornam concretas pra você de forma física, quando você acessa o espaço da universidade?

 

Paulo: então Saulo, na Universidade é algo até engraçado de falar, porque por exemplo, se a gente for tratada das barreiras físicas, o campus da UNESP ele é antigo, tem mais de 60 anos. Mesmo que tenham prédios recém-construídos. Por que eu disse que era um pouco engraçado? Porque na UNESP de Presidente Prudente há piso tátil em pontos muito específicos que não contribui pra uma maior autonomia na locomoção. Por exemplo, na calçada externa do Campus. E aí vem uma pergunta, né? Será que a sala de aula, será que as discussões que são feitas em cada curso são feitas na calçada? Porque é preciso ter aula, assistir aula. E outros pontos são dentro da biblioteca, próximo ao restaurante universitário e próximo a um laboratório que discute a inclusão. Só que esses pontos específicos de piso tátil não conectam, por exemplo, o bloco de Pedagogia a outros lugares. Por exemplo, se eu quiser ir do bloco da Pedago, até o bloco da Geografia, ou da Geografia para a biblioteca e retornar da biblioteca para Pedagogia, eu vou precisar do auxílio de alguém. Por mais que eu possa ter uma maturidade na orientação e mobilidade que são técnicas usadas para pessoa em situação de deficiência se locomover, por mais que eu tenha essa habilidade, muitas vezes não é o suficiente para essa locomoção de forma mais autônoma. E nesse sentido, o piso tátil proporcionaria essa mobilidade de uma forma mais independente e não só eu me beneficiaria de uma faculdade que tivesse um piso regular, ou sem buracos, ou com sinalizações, né? Qualquer outra pessoa, seja uma pessoa idosa, seja uma pessoa que usa andador, seja uma mãe que tá empurrando o carrinho de bebê com a sua criança, seja alguém recém-saído de uma cirurgia, de um pós-cirúrgico que não pode andar muito depressa. Então, qualquer pessoa se beneficia de uma Universidade que não tenha barreiras físicas, né? Uma pessoa que usa cadeira de rodas é a mesma questão. Então na Universidade, infelizmente, essa é uma das barreiras que se erguem assim constantemente, Saulo.

 

Saulo: é uma barreira fundamental, né? Porque se você não consegue se locomover com tranquilidade dentro da Universidade, você simplesmente não vivencia esse espaço. O que eu fico pensando aqui, é que enquanto uma pessoa que tem a visão, eu vejo o espaço da UNESP - quando eu olho pra ele - como uma coisa muito integrada. E quando você relata isso é como se existissem ilhas dentro daquele espaço pra você, não fosse esse espaço integrado.

 

Paulo: é um espaço que ele trunca, né, esse processo de livre andar, né? E aí você acaba cerceando, segregando, os espaços ao qual eu posso me interessar em ir.

 

Saulo: e quando a gente olha pras questões públicas, existe um discurso muito forte na nossa sociedade que a iniciativa privada poderia dar respostas ou já faz melhor do que nesses espaços públicos. E aí é uma coisa que eu gostaria de perguntar pra você. Você acha que essas barreiras físicas elas também se impõem em espaços privados, com shoppings, lojas ou coisas do tipo?

 

Paulo: com certeza, né, porque por exemplo, nas calçadas, em casas, prédios, esses prédios comerciais, cinema. Alguns espaços, algumas situações tem o piso tátil, no entanto, às vezes o piso tátil é colocado simplesmente pelo fato de ser colocado, né? Porque pra respeitar a lei, as pessoas simplesmente fazem e não pensam na funcionalidade daquilo. Não é todo o espaço público que não está acessível e também não é todo espaço privado que ele terá uma acessibilidade plena. É um processo que a gente tá vivenciando e as pessoas precisam entender que para a inclusão ser feita, um dos cernes principais é a acessibilidade, e não pode ser vista ou entendida como algo oneroso, como algo custoso para uma ou para aquele público específico. É para toda e qualquer pessoa poder usufruir de uma forma plena.

 

Saulo: além do espaço da UNESP, existem outros espaços públicos também. Inclusive, espaços pra confraternização ou pra cultura e coisas do tipo assim. E aqui em Prudente a gente tem um local, que me veio a cabeça agora, muito conhecido, né? Quase um cartão postal que é o Parque do Povo que seria o espaço público que representa Prudente, assim. Você sente que ali naquele espaço como cartão postal, a acessibilidade está colocada?

 

Paulo: então, né, a gente começou falando da Universidade, depois fomos pra calçadas, casas, prédios, prédios comerciais e a gente vem para área do lazer, né. Nesse sentido faltam alguns detalhes, né, detalhes que fazem total diferença. Então assim, o Parque do Povo, ele precisa ser – aspas – “adequado” ainda em muitos e muitas características.

 

Saulo: ainda não é totalmente parque do povo. Acho que é bom quando você traz essa ideia de ser a cidade como um todo, porque pra gente que tá estudando a Geografia, a gente olha esses espaços... foi até uma ideia trazido pelo grande geógrafo Milton Santos, como se fossem fixos, né? Estruturas fixas na cidade, existe um fluxo que a maneira como a gente trafega, se relaciona, transita e perpassa por esses espaços. E é como se a gente tivesse uma cidade do qual os flu.., os fixos, desculpa, inviabiliza totalmente os fluxos das pessoas com deficiência. É isso? Podemos partir para a próxima barreira?

 

Paulo: bora pra próxima barreira, Saulo.

 

[bip]

 

Saulo: e aí, a gente chega na questão da barreira da atitude e comunicação e como a gente já tava falando de prédios públicos, prédios privados, eu já vou direto no primeiro ponto. De que maneira nos serviços, no atendimento, você sente que essa barreira ela se ergue pra você ?

 

Paulo: bom, Prudente é uma cidade universitária e o forte de Presidente Prudente é o serviço, né, a oferta de serviços. E, por exemplo, duas situações que são chatas de ser vivenciadas, por exemplo, eu chegar em qualquer loja e se eu tô acompanhado, a conversa nunca é comigo. A conversa é com quem está do meu lado, como se eu não ouvisse ou como se eu não falasse, como se eu fosse um objeto, um dois de paus que não tivesse vida. Eu tô aqui, eu falo, eu escuto, enfim. E outra questão também é no Uber, porque os motoristas, as motoristas, às vezes fazem umas perguntas um tanto quanto capiciosas, né? Uma delas foi: você é 100% deficiente? E aí nesse dia, gente, eu não aguentei. Eu dei risada, né, porque tal qual eu já trouxe aqui, deficiente é como se eu tratasse a pessoa como uma totalidade deficitária. Aí eu dei risada, né, porque eu não sou 100% deficiente. A deficiência - essa característica - é uma parte de quem eu sou, eu tenho tantas outras qualidades. Então, não dá pra perceber uma pessoa por essa ou por aquela característica, ou ainda pelo que lhe falta. E eu percebo também, por exemplo, a questão das pessoas surdas, né? Em situação de deficiência auditiva. Porque será que o comércio de Presidente Prudente tá pronto pra atender essas pessoas, né? Será que tem um ou outro funcionário dessa, daquela loja, que domina a Libras? Ou que minimamente consegue se comunicar? É uma pergunta que precisa ser feita e que precisa ser respondida, o quanto antes. E eu parto para uma outra dimensão que é a educação. Eu percebo essa questão da educação como fundante, porque eu vivenciei na Universidade, a questão da educação. Só que como eu fiz Pedagogia, eu percebo isso também nas escolas municipais e estaduais. Eu acredito que nesse ponto é muito mais preocupante, porque na maioria das vezes são crianças, né, e as crianças -não são todas - mas em muitas situações, elas não conseguem verbalizar, expressar o que sentem. E aí vão sendo oprimidas e sendo postas à margem do que poderia ser um processo transformador.

 

Saulo: quando a gente fala de se relacionar, de se comunicar tem algo que tá totalmente atravessado por isso, que são as nossas relações afetivas. E aí, pra além de um homem com deficiência, você é um homem gay com deficiência. De que forma que essas barreiras atingem na sua afetividade?

 

Paulo: atinge diretamente, Saulo, porque assim... As pesquisas trazem que a percepção visual, o sentido da visão ocupa 80% de todos os sentidos que nós temos, né? Que é o tato, olfato, paladar e a audição, juntamente com a visão. Então, quando não se tem a visão esses outros sentidos têm um novo arranjo e passam a dar conta do que nosso corpo percebe. E o homem de uma forma geral, o masculino né, a figura masculina, é muito visual, né? Muito diferente da mulher, que é algo mais de toque – não tô generalizando em gente, não é todo mundo que é assim. Mas, por exemplo, na comunidade LGBTQIA+ tem muita questão da foto, do corpo malhado, da pessoa do homem branco, que tem que ter carro, dinheiro, casa, trabalho e isso se torna um padrão. E é um padrão fixo ou seja se é um homem que é gordinho, aquele que é mais peludo, aquele que tem a pele escura, que é mais baixinho, sai fora desse padrão e também é colocado à margem. E aí nesse sentido, entra os homens com deficiência. E às vezes vem umas perguntas assim, um pouco desnecessárias e até descabidas, né: “- Ai você relaciona?”; “- Como que você transa? Como que você faz isso?”, né, “- Como vocês faz aquilo?”.  Poxa, gente, somos pessoas antes de mais nada, o fato de que eu não vejo, não diz somente quem eu sou, diz também quem eu sou. Essa característica da deficiência visual é insuficiente pra dizer a minha totalidade, né, não há como capturar a singularidade de uma pessoa, a singularidade de alguém. Nem o nome da conta disso, né? Então às vezes nós somos rotulados à fotos, a meros corpos e não cabe, né, então o fato da exclusão pela deficiência atinge em cheio a afetividade.

 

Saulo: posso aproveitar já pra pegar um gancho, então? Eu queria jogar outra coisa pra nossa conversa que é a ideia de dependência e de interdependência. Quando você traz essa questão do padrão ou de resumir as pessoas somente a um traço da identidade delas, dentre várias outras que existem, a gente também tem muito taxativo a questão da deficiência atrelada a dependência. E aí, de que maneira isso se torna uma barreira também no seu dia a dia?

 

Paulo: isso é muito interessante Saulo, porque a questão do conceito do cuidado, dependência, interdependência, são pesquisas da Antropologia relacionadas à deficiência, à categoria deficiência. E qualquer pessoa pode ser dependente, e em algumas situações, algumas pessoas com deficiência realmente irão depender de uma pessoa, por exemplo, pra se alimentar, talvez pra se locomover da cama pro banheiro, enfim, infinitas situações. Mas isso precisa ser colocado para quem precisa desse auxílio, né, não é porque eu uso cadeira de rodas, não é porque eu não tenho a visão que eu vou depender do outro para tudo. Mais uma vez, isso vem ao encontro do padrão fixo, né, dessas identidades fixas como se toda pessoa com deficiência fosse depender do outro para tudo e perceba: a roupa que nós estamos usando foram feitas por outras pessoas; a comida que nós compramos, ingerimos foi produzida por outras pessoas; a cadeira que a gente está sentado foi produzida por outras pessoas. Então, isso é uma relação de dependência. A dependência não pode ser entendida como algo negativo, né, mas como essa atitude, esse comportamento de troca. Então é como algo positivo, uma pessoa depende da outra e neste desdobramento percebe-se a interdependência de uma pessoa para com a outra. E o cuidado vem nessa questão de cuidar mesmo daquilo que pode proporcionar algo, o cuidado é fundante em todo e qualquer relação. Então não é porque falta a visão, porque falta audição, que é necessário um cuidado exacerbado, um cuidado excessivo e muito menos a indução de uma dependência em tudo.

 

Saulo: Paulinho, a gente sintetizou a barreira física na ideia da cidade com essa representação máxima dessa barreira, né? Eu acho que então, que não seria errado a gente sintetizar as próprias relações sociais como uma máxima dessa barreira, quando a gente tá falando de atitude de comunicação?

 

Paulo: muito bom Saulo, é isso mesmo, né. Porque as relações sociais, elas são imbuídas disso, né, de comunicação e de atitude, portanto essa é uma síntese muito boa que você traz pra gente refletir.

 

[bip]

 

Saulo: e a gente chega então na terceira barreira e a última dessas nossas conversa, desse blocão que a gente tá fazendo aqui muito importante que é o acesso à tecnologia. Agora com a pandemia, mas até mesmo antes dela, a gente já falava sobre tá caminhando pra cidade do futuro, pra um mundo do futuro, pra um mundo da tecnologia, pra um mundo do 5G. E aí, de que forma essa barreira, a barreira da tecnologia, se impõe pra você no seu dia a dia?

 

Paulo: é... eu ouço muitas pessoas dizendo que a tecnologia, ela foi pensada, ela é pensada para nos auxiliar e não para nos tornarmos subservientes. Com a pandemia e durante a pandemia, esse aumento, essa intensificação do mundo digital foi gritante, é gritante. E aí, a gente pode trazer duas dimensões que são as relações no trabalho e a educação né, por conta do ensino remoto. No que diz respeito ao trabalho, se a gente, por exemplo, a minha situação que não tem a visão, já vem algo ruim, né? Porque se eu tenho que instalar um software, um programa no computador, a empresa talvez vá entender que isso vai trazer mais custo para empresa ou a instalação de piso tátil ou ainda a mudança de algumas atitudes, né, que são necessárias que isso pode ser percebido como algo ruim, porque tira um pouco a pessoa do comodismo. E essas tecnologias de trabalho precisam ser pensadas para todos os públicos, porque nós temos muito mais potencialidades, nós pessoas com deficiência podemos oferecer tanto quanto o que nos identifica, né, que é a falta disso ou a falta daquilo. Então, se a gente vem com a tecnologia - vou um pouco pra outra esfera que é a da educação - porque as aulas remotas muitas vezes, a professora não domina a audiodescrição, às vezes não sabe se comunicar em Libras e aí isso dificulta o processo de ensino e educação. E aí, mais uma vez, se configura a exclusão. E ainda na tecnologia a gente pode pensar por exemplo, nos eletroeletrônicos, nos eletrodomésticos, tais quais: máquinas de lavar roupa, o painel do microondas, o painel digital da geladeira ou do freezer. Ainda, acho que o que mais está se desenvolvendo e se atualizando bastante são as televisões, até por conta das inteligências artificiais e dos sistemas de celulares que estão adentrando os aparelhos de televisão.

 

Saulo: e desses exemplos que você tá dando de aparelhos eletroeletrônicos, a gente tem o celular, mas pra além do celular, a gente tem agora extremamente colocado que vem também fortalecido com a pandemia, é a questão dos aplicativos. Porque, igual que você comentou do Uber, pra além da interação dentro do carro, você precisa chamar uma corrida ou você precisa fazer, usar um aplicativo para enviar mensagem, ou pra tudo, né? Hoje em dia a gente já tem aplicativo pra tudo. É uma barreira que está atravessada também, os aplicativos?

 

Paulo: muito boa sua deixa, Saulo. Os aplicativos, eu acesso, né, as pessoas em situação de deficiência visual de uma forma geral, acessam através dos leitores de tela. E se o aplicativo não é acessível, o leitor de tela não consegue ler o que tá sendo expressado. E aí, por exemplo, tem um aplicativo de carro que na hora de confirmar a corrida, o botão de confirmar não está nomeado, não está intitulado. E aí, o leitor de tela passa em cima do botão e diz: botão. E aí, eu não sei que botão que é aquele. Eu só descobri depois que eu pedi para um amigo que tem a visão dizer o que estava escrito naquele botão. Aí, as pessoas podem pensar: - “Poxa, mas aí você não poderia pedira ajuda?” Mas, gente, imagina a gente tem que pedir ajuda o tempo todo? E aí, a gente fica à mercê do outro.

 

Saulo: volta no rolê da dependência.  

 

Paulo. Exato, isso sim é uma dependência negativa. Isso sim, é uma dependência que não traz autonomia. Então, os aplicativos eles precisam ser intuitivos, precisam ter acessibilidade, precisam estar acessíveis pra pessoas que não ouvem ou se comunicam por Libras, audiodescrição de imagens... e tudo isso já existe no mercado, né, só basta as empresas procurarem esses serviços e implementarem esses recursos pra que haja um pleno acesso de qualquer pessoa aos aplicativos que contribui tanto né para se deslocar no dia a dia da cidade.

 

[bip]

 

Saulo: é isso, Paulinho, acho que quando a gente fala sobre um mundo do futuro, né, através da tecnologia, não é possível se construir um mundo do futuro carregando tantos problemas do passado. Então acho que é muito importante a gente se atentar a essas coisas, principalmente quando a gente tem a oportunidade de trabalhar nelas, né, como esse momento de transformação que a gente vem vivenciando não só aqui no Brasil, mas no mundo todo. E aí, eu acho que quando a gente comenta sobre todas essas barreiras e ver como elas estão impostas basicamente no seu dia a dia, no seu cotidiano, na sua vida, nas suas relações, nos ambientes que você frequenta... isso responde um pouco da pergunta, “onde estão essas pessoas?” Ou, “porque elas não estão”, né? E aí, eu acho que a gente poderia agora começar a comentar um pouco disso, assim. De como é preciso fazer essa desmitificação de que se resume a tudo isso ou de que é só isso. Você pode comentar um pouco pra gente?

 

Paulo: claro Saulo, a máxima da Lei Brasileira de Inclusão, diz: “Nada sobre nós, sem nós.”. Essa máxima, ela é criada em 81, por um movimento de pessoas negras com deficiência, quando Nelson Mandela sai da prisão. E essa frase diz muito, né, porque nada sobre as pessoas com deficiência pode - nada - pode ser feito sem a nossa fala, sem a nossa voz. Porque nós não somos identidades fixas, podemos ter algumas características parecidas, por exemplo, das pessoas que se identificam com a cegueira ou baixa visão, mas a gente tem muito mais a oferecer, né? Então para que a inclusão, ela seja efetivada é preciso que haja acessibilidade. A acessibilidade é um dos cernes para que haja inclusão e, nesse sentido, é necessário não invisibilizar as pessoas em situação de deficiência, mas sim é proporcionar vez, voz  e a escuta, né, tal qual é esse edital que a gente tá trabalhando agora que é o Retratos Defiças. Será que se não tivesse sido oferecida essa oportunidade, em outros momentos nós conseguiríamos sermos reconhecidos e expressamos o que a gente sente? E daí, o protagonismo da pessoa com deficiência, né? Daí respeitar o lugar de fala dessas pessoas. E eu acredito que é muito interessante a gente pensar também na hospitalidade, em sermos hospitaleiros, né, tal qual a Maria Teresa Eglér Mantoan traz quando ela discute Filosofia da Diferença de Deleuze, de sermos hospitaleiros. De recebermos o outro do jeito que ele é e não tentar controlar ou rotular, classificar, enquadrar o que nós pensamos sobre o outro, né? Porque, a gente percebe o que o outro expressa, mas daí nem sempre isso é o que o outro quer dizer. Então, essa escuta atenta, isso não querer controlar pra que de verdade a gente possa ter uma sociedade democrática, né, uma sociedade inclusiva.

 

Saulo: bom pessoal, desde o começo do podcast, né, desse nosso episódio, a gente viu como a própria lei reconhece que existem diversas dificuldades e barreiras que estão impostas pras pessoas com deficiência, mas pra além disso, indo sempre pra muito além disso, a gente não pode parar nas barreiras, mas a gente tem que buscar sempre formas de avançar e tornar a sociedade um espaço mais inclusivo e mais acessível como o próprio Paulinho comentou aqui com a gente. Não se trata somente de tornar mais inclusivo e mais acessível pras pessoas com deficiência, mas pra todas e todos mesmo, pra que a gente viva numa sociedade, num mundo no qual as pessoas possam circular e transitar com tranquilidade, do qual a gente possa estabelecer relações, conseguir comprar um pão ou pegar um aplicativo de transporte ou um busão tranquilamente e tirar um passeio na praça e não sair de lá mais estressado porque se viu em volta de vários preconceitos e barreiras... Ou seja, a gente tem muito pra avançar. E aí Paulinho, a importância como você mesmo já comentou, de iniciativas como essa, né? E pra gente terminar, eu queria que você deixasse sua mensagem pra quem ficou aqui com a gente escutando até agora, e falasse um pouco novamente, reforçando, sobre a importância de atividades como essa.

 

Paulo: bom gente, é... chegando ao final aí, eu tô pensando aqui e meu objetivo é tentar trazer um pouco de reflexão. Então, se em algum momento desse podcast, eu fiz você que tá ouvindo, se questionar, se eu trouxe dúvidas, se eu trouxe reflexões críticas ao que está posto, então eu consegui atingir o meu objetivo. Que nós sejamos hospitaleiros e que possamos deixar o outro ser quem quer que seja, a gente não precisa controlar o outro. Pra que, controlar o outro? Por que controlar o outro? Essa escuta mesmo de deixar o outro ser quem ele quer ser, quem ela quer ser. E aí, mais uma vez eu ressalto, né [início da trilha ao fundo]: que nós possamos ser percebidos pelas nossas potencialidades e não por esse reducionismo que muitas vezes é justificativa do capacitismo. Que sejamos anticapacitistas para que tenhamos uma sociedade que não precise mais ficar discutindo inclusão, mas que seja uma sociedade democrática e como tal, a inclusão seja inerente à essa prática, a atitudes democráticas. Então eu fico por aqui, agradeço a presença de vocês e onde quer que vocês estejam: apareçam! Abração, galera.

 

Saulo: é isso gente, eu só tenho a agradecer a oportunidade. É sempre um aprendizado muito grande conversar com o Paulo e poder compartilhar isso com vocês que tão ouvindo. Torna esse processo ainda incrível. Assim como foi muito enriquecedor e traz pra além de esclarecimentos, muitas interrogações pra mim de coisas que eu acho que eu preciso me questionar e um novo olhar para cidade, pras relações, pra tecnologia ou pra qualquer outra barreira que possa tá colocada. Eu espero que quem tá ouvindo a gente também, se coloque e se provoque pra ter esse olhar crítico como você mesmo comentou com a gente, Paulinho. Muito obrigado pessoal, a gente fica por aqui e é isso. Falou!

 

[trilha: beat original por Saulo Vinícius - @alajerecords]

 

[vinheta]

 

Olga Aureliano: É isso gente. Obrigada por acompanharem as atualizações do nosso canal. O roteiro, gravação e edição é de Paulo Henrique e Saulo Vinícius, cocriadores deste episódio; a finalização e vinheta é de Rodrigo Policarpo, e a transcrição é de Beatriz Simões, com revisão de Bruna Teixeira e tradução para o inglês é de Deise Mônica. Este canal só é possível devido aos esforços de uma grande equipe, que junto comigo, faz o Projeto Retratos do Brasil com Deficiência acontecer: Vanessa Malta, Bruna Teixeira, Nádia Meinerz e Pamela Block. A gente espera vocês no próximo episódio!

 

[vinheta]

Card cinza claro, quadrado, do podcast Retratos do Brasil com Deficiência. No centro de um triângulo em diferentes tons de lilás, a cabeça branca da medusa, de perfil esquerdo. O triângulo tem pontas arredondadas e está na horizontal, voltado para a direita. A medusa é uma figura feminina, da mitologia grega, com serpentes no lugar do cabelo. O rosto dela é branco e as serpentes são vazadas, com contorno branco, fino e parecem se mover em todas as direções. Na parte inferior, o nome do podcast. A frase Com deficiência está em negrito e Podcast, em negrito, maiúsculo.